A Copa da África pode até estar meio chatinha pra quem curte jogos espetaculares, gols inenarráveis e passes magistrais.
Fazer o quê? Isso a gente vê toda hora no Brasileirão, pô! Principalmente quando Corinthians e Santos estão em campo, não é Xico Sá?
Mas para os que adoram conflito e boas histórias, esse me parece o torneio mais profícuo de todos os tempos. Pelo menos dos últimos 20 anos, vai.
Tenho que acompanhar a programação anotando tudo num caderninho. Há uma quantidade gigantesca de frases marcantes, atitudes dramáticas e nuances psicológicas.
Sangue, suor e lágrimas pra ninguém botar defeito.
A FIFA comparece com as imagens da super câmera lenta. E os personagens acrescentam legendas inesquecíveis.
Nem estamos nas oitavas e tudo parece ter entrado para a história.
Nas Copas anteriores, a discussão ficava em cima do craque, da jogada, do que acontecia dentro do campo.
Claro, o Ronaldo deu aquela pifada no hotel, os jogadores faziam mais farra… Mas eram casos isolados, que apenas salpicavam de molho os desafios travados nos estádios (tanto que a imagem mais marcante da última Copa é a cabeçada do Zidane – que aconteceu durante a final).
Hoje, tudo o que rola fora dos gramados parece recheado de dramaturgia das boas. Muito mais interessante, grandioso, do que os lances das partidas.
Os técnicos se xingam, se matam; jogadores se mandam; craques se machucam e são cortados sem dó; treinos fechados provocam revolta; Dunga desce o sarrafo na turma da Globo; e lá fora, a África vira tema de nossa máxima atenção, com seus dialetos e complexidade política embalados pela vuvuzela.
Tinha que ser assim.
A Copa 2010 parece dirigida pelo barroquismo de Glauber Rocha, pelo surrealismo de Buñuel. Tudo pode acontecer… Fora do campo.
Dane-se a mesmice das jogadas, as linhas de impedimento, se o campeão será o Brasil, a Argentina ou Gana (mentira, se for Gana teremos uma história que valerá por mil “Invictus”).
Todo mundo apostou que teríamos a Copa das imagens, dos lances captados por sofisticados robôs, de momentos pirotécnicos.
E o que aconteceu? A história, o texto, tomou conta de tudo.
Começou com a Jabulani, passou pelo twitter e os pássaros do Galvão, continua com as declarações de Dunga e Maradona.
Drama. Conflitos. Personagens. Não há papel que dê conta dessa Copa.
O que vale um golaço diante de uma baita frase do Maradona?
Parece aquele papo do Millôr: “uma imagem vale mais do que mil palavras, mas tente dizer isso sem palavras…”.
Tenho certeza que os bastidores desse torneio podem virar peças, filmes, séries, livros e geniais passes de dramaturgia.
Até quem não curte futebol, mas gosta de excelentes histórias, tem bons motivos pra achar que a Copa da África é a melhor da história.

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