Nos filmes, um vilão russo é garantia de diversão. Se tivermos então uma branquinha raivosa vinda diretamente de Moscou, usando uma ushanka (aquele simpático gorro típico) e dizendo com sotaque carregado “i kill you”… Eis um caminho seguro para algo pelo menos animado.
Em “Salt”, de Phillip Noyce (“Jogos Patrióticos”), temos não apenas um bandidão importado da gloriosa ex-URSS, como provavelmente uma espiã russa encarnada no aprazível corpinho de Angelina Jolie. O melhor dos dois mundos, portanto.
E por que raios o filme parece mais frio que um gulag na Sibéria?
Culpa de outro clichê que, este sim, dá sinais de que merece ser mandado para o estaleiro.
Pois em “Salt” temos um presidente norte-americano que abre uma misteriosa maleta, pega um cartão, lê alguns códigos, recebe uma chave e pronto. O sujeito pode disparar alguns mísseis e acabar com o planeta.
Quantas vezes você viu o manda-chuva dos EUA protegido num bunker e prestes a explodir a Terra?
E então alguém tem que impedir a desgraça no momento exato em que o cronômetro do apocalipse registra menos de um segundo para o fim dos tempos.
Fica difícil torcer assim.
Esse recurso está tão desgastado que só serve mesmo para o MacGruber fazer sua graça.
A turma aposentou compulsoriamente diversas coisas boas. Os faroestes foram expulsos do circuito, os musicais emplacam com menos força, não temos mais filmes com motocicletas, os hippies saíram de moda…
Chegou o momento, companheiros. Temos que retirar de cena por um tempo essa história do supremo mandatário norte-americano decidir nosso futuro numa girada de chave.
O Jack Bauer já não esgotou essa possibilidade?
Vamos aos fatos. Em “Salt”, Angelina Jolie (por favor, aplausos) é uma misteriosa agente da CIA e espiã russa. Será?
Além de provar para seus superiores que tem uma ficha corrida ilibada, a sapequinha se envolve no assassinato do presidente da Rússia (fato que pode ocasionar uma nova Guerra Mundial).
O roteiro nos mostra boas reviravoltas, Phillip Noyce não é uma besta (algumas cenas são realmente engenhosas) e Angelina Jolie carrega certa tragédia digna de pena naquele olhar.
Mas… Esse negócio de deixar tudo nas mãos do presidente dos EUA… É um tanto chato.
Tudo bem que agora a ação acontece num bizarro porão da Casa Branca. Porém precisamos de muito mais para cair nessa papagaiada.
Em tempos de tsunamis, florestas em chamas, naves alienígenas bacanérrimas, aquecimento global, heróis em crise, Datenas etc… Um mísero presidente sendo obrigado a disparar umas bombas para provocar a Rússia é meio bobinho, né não?
Cadê o Roland Emmerich quando a gente precisa?
Ainda acho que vilão russo dá samba. Mas esse papinho de “cartão-código-maleta-chave-bomba” já era. Precisa de uma repaginada.
O Sérgio Augusto ou o Rubens Ewald Filho poderiam aqui lembrar de um batalhão de cenas com um presidente ianque borrando as calças e promovendo a tragédia nuclear.
Eu fico com apenas um filme: “The Day After”, de Nicholas Meyer, feito para a TV em 1983.
No auge dos meus nove anos, lembro que depois de ver as cenas abaixo (o bicho pega depois de 1min40seg) senti paúra, pavor, temor, pânico e… cagaço mesmo.
Naquela noite percebi que as imagens poderiam me levar a emoções extraordinárias. E deixavam efeitos que duravam por muito tempo depois da sessão terminar (fiquei anos olhando para o céu em busca de rastros de mísseis que anunciariam o fim do mundo).
E “Salt”? Se não carrega muitos méritos, pelo menos nos faz pensar que esse gênero “presidente norte-americano tem o destino do mundo nas mãos” morreu por overdose. E que descanse em paz (pelo menos por enquanto).

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