O drama na campanha da Dilma e a falta dele em “A Cura”

Cada vez que assisto ao programa eleitoral da Dilma, me convenço mais que o João Santana, marqueteiro da candidata petista, leu “Três Usos da Faca”, o imprescindível ensaio de David Mamet sobre a natureza e finalidade do drama.

Pois a noção de estrutura dramática imposta na campanha da ex-guerrilheira é absurdamente precisa.

É como ver os filmes da série “Guerra nas Estrelas” – com a vantagem que os três primeiros episódios não são dirigidos pelo George Lucas.

O roteiro da equipe de Santana consegue transformar Lula ao mesmo tempo em Mestre Yoda e Darth Vader. E Dilma segue com eficácia sua sina de ser o Luke Skywalker da vez.

Não sobrou espaço para mais ninguém protagonizar a trama (também por culpa de alguns personagens frouxos).

A sacada é fazer o atual presidente ser mentor e vilão (já que a oposição deixou este cargo vago). Nem a Pixar pensou num negócio desses ainda.

Pois não só Lula dá broncas e educa sua discípula, como também é o responsável por colocar obstáculos, ferrar a vida da coitadinha.

Assim, o PT controla as três figuras principais da história. Aí não tem erro.

O programa eleitoral mostra a candidata como “filha do homem”, mas também heroína por aceitar a tarefa de derrubar o pai. Ela quis esse fardo.

Na peça da eleição, Dilma é corajosa porque ainda tem obstáculos grandiosos e abstratos pela frente. Ela quer abraçar o Brasil, melhorar o “imexível”, colocar o país nos píncaros da glória, explodir de excitação uma nação fadada ao sublime.

E Lula ajuda na trama, ocupando com garbo o papel de vilão ao dizer “olha lá hein, mulher, não vai ferrar meu povo! Eu vou ficar de olho!”. Ele também é uma ameaça. Precisava ser assim.

Melhor ainda, o marqueteiro percebeu que a biografia de Dilma ajuda (quem diria) na sua performance dramática. Qual é a graça em torcer por alguém sem dúvidas, preparado, já com truques conhecidos, boçal na sua perfeição?

Quanto maior o obstáculo (ex-guerrilheira, com falhas de caráter, brigona), mais nos esforçamos para ver onde o herói vai chegar e como será essa sua transformação.

A pobre bruaca conseguirá virar princesa?

Lula é uma meta e ao mesmo tempo o empecilho. E um bom roteiro precisa de gigantescos empecilhos.

Enquanto isso, Serra segue na sua desastrosa sina de escada, de coadjuvante, uma espécie de Han Solo sem sex appeal e sem Chewbacca (só com babacas).

Na hora do drama, em vez de buscar um papel de destaque ou desconstruir o texto, o danado quis brigar pelo posto do Luke, dizendo para o pai Darth Vader: “eu sou o seu filho também!”.

Completo desconhecimento da trama. Os papéis já tinham sido distribuídos lá atrás, enquanto o ex-governador estava mergulhado na sua indecisão.

O ruim é que a platéia pode estar apostando num filme meio farsesco, sem aquele alívio do bom drama, mas apenas com o final decepcionante da realidade política.

*

A série “A Cura”, de João Emanuel Carneiro, tem alguns bons momentos. Principalmente na sua lentidão cinematográfica quando registra o passado.

Há uma bonita contemplação de Diamantina, de Minas Gerais, da natureza. Aqui e ali respinga um certo vigor bem pensado, necessário para a trama (e não apenas para vender tilha-sonora).

No segundo episódio, um plano lembrou, por que não, “Rastros de Ódio”, de John Ford.

No presente, há frescor na interpretação de Andréia Horta. O resto é aquele passo novelesco, previsível, sem ritmo, alternando diálogos apressados com outros momentos de nulidade narrativa (mortal numa série que não invade todos os dias a hora do jantar).

Fato é que alguém fica doido de ansiedade para toda semana ver um novo episódio de “A Cura”?

Assim como não vi ninguém babar de expectativa por “Na Forma da Lei”, “Força Tarefa” ou “S.O.S. Emergência”.

Falta urgência, estrutura narrativa, drama em qualquer coisa que não seja novela no Brasil.

Até as vinhetas de abertura parecem anódinas, sem graça, sem vida.

Se o começo já brocha, o resto então…

Parece que O Marqueteiro ainda é o cara que mais entende de drama na TV brasileira de hoje.

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