Quem não gosta de olhar uma tabela com a bilheteria de filmes? Toda bonitinha, cheia de cifrões e apostas.
Estão lá os azarões, os vencedores e os fracassados.
Analisando apenas o lado econômico, a coisa é simples de decifrar. Não há nenhum enigma vindo de alguma esfinge sacana.
Quem arrecadou mais aparece na frente de quem faturou menos. Aqui o mercado é cristalino, sem pegadinhas.
Mas o que apreender quando apagamos os dólares? Qual é o recado transmitido pelo lado cultural e ideológico de uma tabelinha dessas?
Façamos uma experiência.
Pesquei na internet (de fontes diversas, por isso não reparem em eventuais tropeços na ordem) o Top 10 da bilheteria norte-americana deste ano e os dez filmes nacionais mais assistidos no Brasil de janeiro a setembro de 2010.
E daí? Vejamos:
TOP 10 EUA
“Toy Story 3”
“Alice no País das Maravilhas”
“Homem de Ferro 2”
“A Saga Crepúsculo: O Eclipse”
“A Origem”
“Meu Malvado Favorito”
“Shrek Para Sempre”
“Como Treinar Seu Dragão”
“Karate Kid”
“Fúria de Titãs”
TOP 10 FILMES BRASILEIROS
“Chico Xavier”
“Nosso Lar”
“O Bem Amado”
“Lula, o Filho do Brasil”
“HSM – O Desafio”
“As Melhores Coisas do Mundo”
“Quincas Berro d’Água”
“400 Contra 1”
“Uma Noite em 67”
“5x Favela – Agora por Nós Mesmos”
Podemos deduzir que:
a) o público norte-americano é debilóide, pois colocar “Karate Kid”, “Fúria de Titãs” e vampiros castos na lista dos dez mais só pode ser brincadeira.
b) adulto fica em casa vendo “Mad Men” e HBO. Só criança vai ao cinema na América.
c) o próximo filme do Clint Eastwood, “Hereafter”, irá fazer um sucesso danado no Brasil, pois o tema é espiritual.
d) o cinema brasileiro exibe uma saudável diversidade na lista, bem ao contrário dos gringos.
e) como os caras lá de cima curtem animação, hein?
f) Daniel Filho é um gênio.
g) com exceção da letra f, todas as alternativas são bobagens. Queremos demonstrar outra coisa com esse jogo.
Acertou quem chutou a letra G.
Vamos esquecer o abismo entre a arrecadação de cada tabela. Pensemos no conteúdo, no roteiro.
Não precisamos de espíritos evoluídos para saber que o jovem gasta os tubos nas salas. E isso é fundamental para a formação do futuro consumidor de filmes.
Mas ele não tira a bunda do sofá para ver longa-metragem brasileiro.
Mas nos EUA, por causa do 3D e de histórias vibrantes, eles compram pipoca e ainda se animam com o cinema.
Não à toa 9 dos 10 filmes no Top 10 norte-americano desenvolvem fantasias juvenis com bonecos falantes, homens voadores, lobisomens que nunca usam camisa, dragões fracassados e monstros mitológicos.
Por aqui, apenas dois da lista dos mais assistidos têm a temática mais próxima desse público. Mesmo sendo bem ruinzinhos, conseguiram empurrar a platéia para as salas.
Há um Grand Canyon entre o cinema nacional e a turma que tem entre 0 e 25 anos.
Parece que estamos comprovando que o modelo de produção no país começa a se ajustar – alguma qualidade técnica, bons atores, dinheiro público produzindo qualquer coisa etc. Mas o conteúdo ainda é precário e dependente do Daniel Filho, da Globo e de um tema que desperte o interesse de um nicho.
Não há invenção, criatividade e histórias que façam cócegas na molecada.
Se a gente quiser um Top 10 um pouquinho mais gordo nos cifrões, precisamos formar público.
E só boas histórias podem mudar esse cenário.

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