Diplomacia suja

UM LIVRO

O subtítulo de Diplomacia Suja (Companhia das Letras), de Craig Murray, resume bem o espírito do livro e lembra até uma daquelas chamadas da Sessão da Tarde: “As conturbadas aventuras de um embaixador beberrão, mulherengo e caçador de ditadores que, sem um pingo de arrependimento, se viu encalacrado na linha de frente da Guerra contra o Terror”.

Faltou apenas o “e se envolve em muita confusão”.

Diplomacia Suja poderia ser mais um longo documento revelado pela turma do site WikiLeaks. Mas é um chocante e sarcástico relato de um embaixador do Reino Unido no Uzbequistão. Por vezes há até aquele humor do Monty Python, tamanho o nonsense de alguns casos.

Murray comandou o serviço diplomático de Sua Majestade na região de 2002 a 2004.

Encravado entre Turcomenistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e outros nomes bem divertidos, o Uzbequistão é mais um dos países que depois de se livrar da antiga União Soviética ganhou de presente um ditador chegado numa farsa – o folclórico presidente Karimov.

Por fazer fronteira com o Afeganistão e ter uma população majoritariamente muçulmana, após os ataques de 11 de Setembro o lugar passou a ser de vital importância para a política internacional norte-americana.

Atitudes pouco democráticas e brutais contra os direitos humanos passaram a ser toleradas com eufemismos e tapinhas cordiais. Melhor um Uzbequistão na mão do que embaixadas dos EUA voando pelos ares.

Murray adquiriu certa experiência com perrengues ao servir em Gana, na África. Portanto sabia que ao pisar no país vizinho de Borat encontraria mais do que paisagens deslumbrantes, certo exotismo e dançarinas russas.

Só que o sujeito não esperava topar com dissidentes mortos em água fervente; ou um poder judiciário totalmente viciado; e que tal uma população miserável, vivendo da colheita de algodão sob um regime de um sujeito que às vezes parece ser clone do Kim Jong-il?

Assim, chocado com as brincadeiras de Karimov e com a subserviência dos outros embaixadores, Murray começou a escrever memorandos e dar depoimentos para a imprensa revelando as baixarias da diplomacia e dos governantes uzbeques.

Uma espécie de cablegate do WikiLeaks, só que com mais farra e mulheres, afinal Murray não é de ferro.

Além de descrever os bastidores de uma ditadura e dos serviços de um representante diplomático (inclusive com a revelação de documentos), ele narra suas bebedeiras com vodca (saibam que o vinho uzbeque é uma porcaria) e sua paixão por uma stripper.

Detalhista, o relato de Murray não poupa esforços para elogiar sua própria coragem e ousadia.

Fazer o quê. Já que ele pretendia jogar uma carreira no lixo, melhor fazer a coisa toda com classe. Mas esse tom heróico não chega a atrapalhar.

Diplomacia Suja é boa companhia enquanto esperamos mais um documento no WikiLeaks.

UM TRAILER

Livro novo do Thomas Pynchon na praça é como um filme inédito com os personagens de Star Wars ou Star Trek.

Alguns fanáticos se animam, outros esperam a tradução em português para implicar com os erros, uns começam a decorar as frases, uma turma passa dias apenas correndo atrás das citações etc.

Sobre Vício Inerente (Companhia das Letras), sétimo livro do Pynchon, Sérgio Augusto já escreveu tudo no Estadão (leia aqui).

E agora surge mais um detalhe para aumentar a coleção de “coisinhas bacanas do Pynchon”.

O autor leu um trecho do livro para servir de off do trailer da obra.

Olha aí outra informação em off capaz de agitar muita gente.

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