UMA IMPLICÂNCIA
Taí uma coisa que não entendo. Por que a crítica insiste em usar a expressão “este é um filme menor de Fulano de Tal”?
Parece um tabefe com luva de pelica, um eufemismo bobalhão, um jeito inútil de gastar saliva e tecla.
Esse conceito já virou clichê. É igual dizer que “o novo filme da saga Harry Potter é mais soturno que o anterior”. Nossa, que sagacidade, não?
Convenhamos, “filme menor de” não quer dizer nada. Na matemática, seria um “conjunto pejorativo vazio”.
Então respondam. Um “filme menor de M. Night Shyamalan” vale mais que “um filme menor de Tim Burton”? “Um filme menor de Pedro Almodóvar” é equivalente a “um filme menor de Godard” só porque são europeus?
Ou “um filme menor de Steven Spielberg” é muito melhor do que “um filme maior de Roland Emmerich”? E quem só faz “filmes menores”, como é que fica?
Será que um “filme maior de Michael Bay” é tão bom quanto “um filme menor de David Lynch”?
E como dizer que alguma coisa do tailandês Apichatpong Weerasethakul é menor se a gente não consegue explicar nem por que as coisas que ele dirige são tão maiores que as de muitos outros?
Sei não, mas desconfio de quem usa “um filme menor de”. Acho que é preguiça de jornalista que não sabe muito o que falar/escrever e chuta logo de bico.
O que pensar então sobre o Woody Allen?
Certamente, o cineasta com os melhores filmes menores de todos os tempos.
Ninguém fez tanto “filme menor de” do que o nova-iorquino. Seu primeiro longa de verdade, Um Assaltante Bem Trapalhão (1969), já foi um “filme menor desse humorista brilhante nos palcos”.
Com quase 50 filmes nas costas, ele tem dois ou três considerados realmente grandes (Annie Hall, Manhattan e Crimes e Pecados, por exemplo) por parte da crítica.
O resto, xingam como menores, seja porque são “existencialistas e cabeças”, ou “têm ritmo e boas piadas, mas não chegam a lugar algum”.
Assim, de filme menor em filme menor, hoje ele é o maior cineasta em atividade.
Viram? E vocês achando que “filme menor de” era desabonador.
Seu penúltimo longa, Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos, também foi saudado como “um filme menor de Woody Allen”.
Mas por que não escrevem logo “este é um filme ruim de um grande diretor por isso e por aquilo”? Pronto. “Filme menor de” parece que o sujeito está com peninha, prefere dar um desconto, tem dó do autor. Soa arrogante e fora do contexto.
Vejo o crítico batendo no ombro do Woody Allen e dizendo, enquanto caminham pelo Central Park: “Você já fez melhor, hein rapazinho? Gostei, mas sei lá. É engraçado, divertido, com excelentes atores, mas não é Annie Hall, né? Olha, se você não tivesse feito Annie Hall eu poderia adorar todos os seus novos filmes. Mas maldito seja… Você fez Annie Hall!”.
Se o Woody Allen não tivesse feito aqueles dois ou três consagrados, Você Vai Conhecer… seria então excelente?
Talvez seja melhor nunca fazer nada extraordinário, afinal, quem quer erguer sua obra acima de algo tão brilhante?
Por isso essa categoria não funciona.
Ou tudo não passa de uma implicância da minha parte?
Pode ser. Mas quando escuto esse papo de “filme menor de”, vou logo perguntando: “Tá, mas é bom ou não é, pô?”.
Eu lá quero saber de menor… E Você Vai Conhecer… é bem razoável. Boas viradas no roteiro, atuações espetaculares e aquele show de mulheres histéricas e homens fracassados. É bom.

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