UMA LISTA – PARTE II – FINAL
Mesmos critérios da primeira parte.
MELHOR SHYAMALAN
O indiano M. Night Shyamalan tomou mais algumas pauladas da crítica (principalmente a norte-americana) este ano. O seu O Último Mestre do Ar foi chamado de “a experiência mais agonizante em todas as categorias e também naquelas que ainda serão inventadas” pelo respeitado Roger Ebert. Certa injustiça com o valente diretor. Também, quem mandou mostrar um crítico insuportável ser trucidado por uma criatura de outro mundo em A Dama na Água? Agora, agüenta o tranco e o rancor da molecada responsável pelas estrelinhas no jornal. Se O Último Mestre…, apesar de diversas qualidades, não é uma maravilha, Shyamalan mostrou que continua com o taco afiado para apostar em novos talentos. Demônio, filme B produzido e parcialmente escrito por ele, é tão intrigante quanto alguns trechos de seus trabalhos anteriores. John Erick Dowdle dirigiu essa que promete ser a primeira parte de uma trilogia de longas de terror. Agonizante (no bom sentido: o do espetáculo feito para nos meter medo) e com boas surpresas, mostra o que acontece quando algumas pessoas ficam presas num elevador e o Diabo resolve mostrar os chifres. De brinde, uma abertura espetacular.
MELHORES NACIONAIS
Com todo o sucesso do Coronel Nascimento em Tropa de Elite 2, os documentários brasileiros perderam um pouco o lugar nos holofotes. Pena. Há algum tempo que a música brasileira tem recebido imenso carinho desses longas, que discutem com propriedade passado e futuro da canção no país. Esse gênero também é o responsável pelo mais interessante resgate do nosso patrimônio audiovisual das últimas décadas. Em 2010, Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, uniu as duas vertentes. Conseguiu falar de música e ainda eternizar imagens de uma ousada TV brasileira do final da década de 60. Mesma coisa fizeram Tatiana Issa e Raphael Alvarez em Dzi Croquetes. Ao narrar a trajetória do espalhafatoso e genial grupo de teatro dos anos 70, os diretores fizeram história e promoveram uma outra imagem do país, muito longe da caretice do Nascimento e dos mortos-vivos que se espalharam pelas telas. Os documentários nos provam que, se hoje pouco criamos coisas novas, parece que um dia tivemos certa importância. Agora é retomar o fio.
CINEMA É COISA SÉRIA
Agora que não somente a pipoca é em 3D, o cinema parece que voltou a ser um lugar de frisson, de certa adrenalina. Não existe mais tanto espaço nas cadeiras para aquela coisa religiosa, de respeito, como a turma da nouvelle vague queria, colocando o cinema numa posição maior que a vida (sagrado, portanto). Mas certos cineastas ainda tratam seus longas como arte séria, que deveria ser vista de fraque e chapéu. Tetro, de Francis Ford Coppola, e Vencer, de Marco Bellocchio, são obras que não flertam com videogames ou literatura pop. As referências desses longas são óperas, música clássica, filmes da velha Hollywood, sublimes tragédias. Enfim, o cinema também soube se comportar como grande arte em 2010.
INJUSTIÇADOS DO ANO
Scott Pilgrim Contra o Mundo, de Edgar Wright, une videogame e cultura pop para contar a história de uma terrível dor de cotovelo. Garotas e garotos tentam lidar com a dor de um pé na bunda. Edição primorosa, ritmo frenético e um elenco impecável povoam este que talvez seja o mais falado filme de 2010 daqui a alguns anos. Um longa não somente na frente dos velhos, mas inclusive mais ousado e interessante que os que se julgam de vanguarda. Já Greenberg, de Noah Baumbach, está pouco se lixando para a garotada. Seu protagonista, um quarentão fracassado – e chato – interpretado por Ben Stiller, parece só interessar aos… quarentões chatos. Os jovens são tratados como alucinados meninos sem noção. Também só agora começa a ser listado como um dos melhores do ano. Ainda bem. O Pior Trabalho do Mundo, de Nicholas Stoller, traz Russel Brand e Jonah Hill revivendo um pouco a dupla de Ressaca de Amor. Produzido por Judd Apatow, foi lançado diretamente em vídeo no Brasil. Merecia mais. É a comédia politicamente incorreta do ano, com bons lances cômicos, atuações vigorosas e lances engraçadíssimos – principalmente para quem curte música pop. Vale pelo menos para observarmos como o cinema brasileiro voltou a ser conservador (sem pornochanchadas, por exemplo).
MELHOR DO ANO
Toy Story 3 fecha o ciclo de maturidade de John Lasseter, Ed Catmull, Steve Jobs e todos os bons xaropes (no melhor sentido da palavra) que um dia pensaram em produzir grandes filmes em animação digital com a marca Pixar. Quinze anos depois do primeiro Toy Story, Lee Unkrich dirigiu esse fecho e deve ter feito o velho Walt Disney se revirar de felicidade na câmera de criogenia (se ele realmente estivesse em uma). A identificação que temos com as aventuras de Woody, Buzz e sua turma tem que ser explicada pelo Oliver Sacks, não por críticos ou colunistas. Além de imenso apuro visual, a história nos carrega para todos os cantos da alma. Sofremos, rimos, choramos com imensa desenvoltura. Como os brinquedos, nos sentimos mais humanos do que nunca. E a cena em que todos se dão as mãos e escorregam unidos para a morte anunciada já é um dos grandes momentos da história do cinema.
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