O que se passa na cabeça dos cachorros

UM AUTOR

Quando perguntam para o roteirista Bráulio Mantovani (Tropa de Elite 1 e 2, Cidade de Deus) qual livro ele recomenda para quem pretende aprender a escrever para as telas, ele costuma responder: “A Filosofia da Composição, de Edgar Allan Poe”.

Já o Fernando Bonassi (seriado Força Tarefa, Carandiru), questionado sobre o mesmo assunto, outro dia mencionou Morfologia do Conto Maravilhoso, de Vladimir Propp.

Dicas que fogem dos livros técnicos e manuais sempre são interessantes – e na linha especulativa e psicológica vale muito olhar o recente A Psicanálise na Terra do Nunca, de Diana Corso e Mário Corso.

Por trás de qualquer sugestão de leitura há sempre um conselho óbvio: até para escrever um bom bilhete é necessário ler muito e de tudo.

Raramente me pedem para citar apenas um título que funcione como start para a escrita de um roteiro. Quando isso acontece, sempre saio pela tangente, cuspindo uns clássicos ali, quadrinhos, várias coisas de jornalistas, um McKee acolá e fechando com “leiam tudo, porra!”.

Mas agora também já tenho “o livro”, aquele título mais provocador, brincalhão e que aparentemente não passa nem perto de uma bibliografia básica recomendada para um roteirista iniciante.

Trata-se de O que se Passa na Cabeça dos Cachorros (editora Sextante), de Malcolm Gladwell.

Aí está um bom manual para quem gosta de articular umas palavrinhas.

Reúne diversas reportagens que Gladwell (jornalista inglês, criado no Canadá, que vive nos EUA) publicou na The New Yorker.

Divididas em três seções, as histórias vão de um perfil de Cesar Millan, o encantador de cachorros, até uma improvável ligação entre mamografia e a guerra no Iraque.

Em cada artigo, não só é possível aprender a concatenar idéias e montar uma estrutura narrativa, como também buscar inspiração para compor personagens e enredos.

Um mestre da observação, Gladwell consegue arrancar milhares de palavras curiosas e divertidas a partir de uma questão como “por que nunca inventaram um ketchup capaz de concorrer com o Heinz?”.

Seus outros livros lançados por aqui, Fora de Série, Blink, O Ponto de Virada, também servem como complemento.

Melhor ainda. Ao citar esse O que se Passa…, posso aproveitar e emendar um conselho oferecido por Gladwell: “O truque para encontrar boas idéias é se convencer de que todo mundo e todas as coisas têm uma história para contar. Nosso instinto como ser humano é supor que a maioria dos assuntos não é interessante. Um bom escritor, porém, deve lutar contra esse instinto todos os dias”.

Gladwell é um grande escritor (além de ter uma cara danada de boa).

Em tempo: O mesmo Bráulio Mantovani fã de Poe escreveu um belo artigo na revista Dicta&Contradicta de dezembro do ano passado revelando saborosos – embora às vezes melancólicos – bastidores da vida de um roteirista.

UM TRAILER

Red State é um filme de suspense/terror de Kevin Smith. No elenco, Melissa Leo e John Goodman. Mesmo não encontrando muita gente que tenha gostado de Pagando Bem, que Mal Tem ou O Balconista 2, Smith seguiu em frente.

Ele é sempre um escritor interessante, politicamente incorreto e capaz de chafurdar em algumas feridas. Parece curioso.

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