“Super 8” e as pessoas que moram nos filmes

 

De vez em quando o mundo nos surpreende positivamente e coloca em cartaz, ao mesmo tempo, dois belos projetos de cinema. E mais, é possível estabelecer um diálogo entre eles, já que um fala sobre o começo de tudo (A Árvore da Vida, de Terrence Malick) e outro narra como as coisas acabam (Melancolia, de Lars Von Trier).

Agora, do jeito que o ano caminhava, nem o mais otimista poderia prever um terceiro grande filme bem no meio dos outros dois. Mas aconteceu.

Super 8, de J.J. Abrams, é uma obra sobre a aventura da juventude. O diretor norte-americano não esconde sua predileção por restaurar uma certa imagem de cinema e o apreço pela família.

Seus dois primeiros longas foram baseados em franquias de sucesso – e que já vinham de produções da TV, veículo que notabilizou Abrams quando ele realizou Lost.

Missão Impossível 3 (2006) trouxe Tom Cruise outra vez como o agente Ethan Hunt. Porém, mais preocupado em salvar a mulher dele – e por conseqüência seu casamento – do que limpar o planeta de bandidos; e Star Trek (2009) é um acerto de contas entre gerações, com um jovem Capitão Kirk tendo que superar a pressão paterna – mesmo nos confins de um buraco negro, nossos sobrenomes e identidade têm valor.

Agora, com Super 8, livre de qualquer plot já conhecido, Abrams finalmente pôde – assim como fez na TV – inaugurar um projeto de história. Claro, mantendo o eixo familiar, a falta de pudor em usar momentos piegas e as referências e homenagens.

No caso, estamos invadindo a seara de Steven Spielberg (E.T. – O Extraterrestre e Contatos Imediatos do Terceiro Grau), Richard Donner (Os Goonies) e dois Georges, o Lucas (Star Wars) e o Romero (A Noite dos Mortos-Vivos).

Mais do que recuperar o passado (final dos anos 70, mais precisamente 1979), o que Abrams faz é lembrar as imagens de décadas atrás.

 

 

Spielberg e companhia moldaram um estilo de cinema e filmaram a América de maneira peculiar e marcante. É isto que vemos em Super 8. Não é, como alguns falaram, somente um passeio pelos costumes e cultura do início dos anos 80; mas, principalmente, uma volta pelo que ficou registrado daquela época nas películas.

Temos no início um grupo de garotos um tanto órfãos, esquecidos por pais ocupados demais ou por tragédias familiares – a morte da mãe. Na falta do controle e da atenção da família, sobra o amor pelo cinema (que aparece como substituto para tudo o que a vida real subtrai ou esconde).

Os meninos fazem filmes caseiros com a gana (e sem grana) daqueles que inventaram a nouvelle vague (a arte é maior que tudo). Eles são ingênuos, ainda imaturos, mas talentosos e inteligentíssimos – como a geração nerd capitaneada por Spilelberg e Lucas nos conturbados anos 70.

Num primeiro momento, Super 8 é um filme de aventura passadista. Os moleques registram suas histórias de zumbis e se animam a fazer um curta de terror. Mas eis que o medo atravessa a tela e invade a realidade.

Um acidente de trem liberta algo misterioso. Um bicho? Um monstro? Um igual?

A garotada se vê diante de um desafio dificílimo, de um teste revelador: devem provar que conseguem fazer os filminhos e ainda por cima compreender o que significa aquela ameaça.

Sem perder o foco, eles continuam a rodar a câmera, mas agora tendo que conviver com a morte, o fracasso, o amor, enfim, com uma visão adulta sobre o mundo.

O quanto eles podem se dedicar à arte sem prejudicar o desempenho na vida? Essas coisas são conciliáveis?

Pois não foi assim que aconteceu com Spielberg, Lucas etc.? Aqueles meninos que Peter Biskind tão bem retratou (e fofocou) em Easy Riders, Raging Bulls também tiveram que harmonizar suas fantasias juvenis com as porradas e as loucuras do mercado e de Hollywood.

Porém, Abrams dá um passo além da simples referência e piscadela. Ao filmar como os seus ídolos do passado (observe que tudo é mais lento, tenso, dramático, com suaves movimentos de grua), o diretor resgata a fotografia de um tempo.

Assim, vemos na tela um xerife que é igualzinho ao xerife daqueles filmes da Sessão da Tarde dos anos 80; o moleque que trabalha no posto de gasolina tem a cara espinhenta de uma época em que as pessoas tinham acne; as meninas usam bobes; tanques do Exército invadem as ruas, excitando a comunidade; cientistas fazem pesquisas malucas e registram tudo em rolos de filmes e gravadores; a cidadezinha no meio da nada é exatamente como as cidadezinhas no meio do nada deveriam ser.

Ao olhar cada detalhe de Super 8, ficamos com a impressão que essas pessoas moram nos filmes. Onde hoje o Abrams conseguiria arranjar aquelas caras tão anos 80? Só mesmo no cinema.

Super 8 mostra um mundo onde a banalidade ficava num quarto escuro e não sentada no meio da sala, impedindo a passagem. Mas era assim mesmo? Ou isso está apenas no cinema?

Temos impregnadas na cachola sequências de filmes – e não da vida real. Tudo parece ser comum, factível, não porque já estivemos lá, mas sim porque vimos muitos filmes com esse mesmo espírito, com esses mesmos rostos.

Íntegro, emocionante e engraçado, Abrams fez um longa cheio de nuances.

Se Super 8 surgisse em 1980, milhares de adolescentes correriam fazer seus filmes de zumbis no dia seguinte. E hoje? O que motiva os jovens a se apaixonarem pelo cinema?

O novo longa do criador de Lost não acaba nem se esgota numa primeira visão. É um belo filme, cheio de vida, mas que pode deixar os quarentões com uma pontada de melancolia. Afinal, o que aconteceu com aquelas crianças? Estamos vivendo a projeção de futuro que elas construíram?

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