Eu te amo, mina

O fato de algumas resenhas compararem o filme Missão Madrinha de Casamento com Se Beber, Não Case (Todd Phillips, 2009) revela bastante sobre a importância do primeiro. Não pela idéia óbvia (e por isto mesmo despropositada) de colocar o conteúdo dos dois lado a lado; eles seguem em retas paralelas e podem se cruzar apenas no infinito. Porém, ao lembrar do longa que mostrava – de forma engenhosa e hilária – mais uma despedida de solteiro, os críticos demonstram a lacuna que existe na temática “garotas mais velhas piram na hora do casamento e são tão infantis e escrotas quanto os homens”.

Portanto, Missão… só é parecido com os “dick flicks” da última década porque ainda não existem “chick flicks” como este dirigido por Paul Feig e escrito por Kristen Wiig e Annie Mumolo. Em breve, se as meninas continuarem nessa toada, subindo posições e inventando parâmetros, certamente teremos novos roteiros com minas enlouquecidas barbarizando – e então, estes filmes serão comparados com Missão Madrinha de Casamento.

Também é necessário mencionar que um dos produtores da comédia é Judd Apatow, um dos revitalizadores – juntamente com os irmãos Farrelly – dos “dick flicks”. E Paul Feig vem de bons trabalhos na TV (em especial o brilhante Arrested Development) e, lá atrás, em 1999/2000, criou Freaks & Geeks, também produzida por Apatow e que era uma série “dick flick”.

Tudo isso faz de Missão… um filme com DNA de brutamontes, mas criação social totalmente independente, lançado num mundo feminino e escrito por duas mulheres. Uma mistura que se mostra competente e, até mais do que isto, memorável em alguns momentos (a cena da prova de vestidos merece entrar no panteão dos momentos bizarros do cinema).

Depois de provada a relevância, digamos assim, conceitual dessa comédia, podemos partir para o que realmente importa: ela é engraçadíssima. Estranho notar que no Brasil o longa não recebeu nem parte do espaço na mídia e na imprensa que ganhou nos EUA (lá, ele arrebentou nas bilheterias e teve imensa aceitação crítica). Pode ser culpa do título um tanto estúpido (assim como era Se Beber, Não Case), que não diz muita coisa (ou nada) para homens e adolescentes (madrinha de casamento? Sério?).

Além de escrever, Kristen Wiig (que tem excelentes perfomances no Saturday Night Live) protagoniza o filme com enorme graça e competência. Seus trejeitos físicos e sua capacidade de modular a voz para dar ritmo às piadas elevam cada cena. E são muitas – e Wiig está presente em 98% (um chute, claro) das sequências. Temos diversos esquetes de longa duração e com dezenas de piadas. E, apesar de um natural desnível e alguns tropeços, no saldo geral o filme resulta equilibrado, coeso, passando aquela sensação de ser engraçado todo o tempo – e tem mais de duas horas de duração.

Não só Missão… coloca balzaquianas fazendo coisas estúpidas antes exclusivas dos machões (o que é a cena em que a noiva sofre com dor de barriga e precisa se aliviar na rua?), como o esperto roteiro não deixa de contemplar o lado romântico dos clássicos “filmes de menina”.

Se fosse realmente necessário cruzar essa comédia com outra, o melhor exemplo seria compará-la com Eu te Amo, Cara (John Hamburg, 2009), por mostrar de forma hilária o amor entre amigos.

Acima de promover escatologia e explosões de humor tendo como base as vésperas de um casamento, Missão… realça o eterno amor “não-lésbico” entre duas mulheres.

Se existe uma moral no filme, ele não está na procura do príncipe encantado (que, de fato, aparece) nem nas desventuras do casamento, mas sim nessa incompreendida e difícil relação de amizade entre a noiva e sua madrinha de honra.

Por isso o filme é tão interessante. Ele amarra com sutileza narrativa três elementos: piadas deselegantes e chulas, típicas do universo masculino; uma história de amor do tipo “patinha feia em desespero para encarar o altar”; e uma complexa trama emocional sobre a amizade entre mulheres.

Missão… está muito mais para Eu te Amo, Mina do que para Se Beber, Não Case.

2 comentários em “Eu te amo, mina

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  1. Amei esse filme. Assisti essa semana. Acho que tem cenas na pegada de Ela é o Diabo rs. Aquele da Cameron Diaz, Jogos de Amor, tb tem cenas hilárias nessa mesma pegada. Mas aí o mote é amor e não amizade. Missão Madrinha, no entanto, supera.

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