“O Palhaço” e “Amanhã Nunca Mais”

 

Abaixo, duas resenhas publicadas na revista Rolling Stone.

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O Palhaço, de Selton Mello.

Selton Mello é um ator popular que tem a habilidade de conciliar projetos de enorme apelo comercial com outros mais autorais e de pouca visibilidade. Sua estreia na direção (Feliz Natal, 2008, em que não atuava) apontou uma trajetória de difícil comunicação com um grande público – tanto pelo tema (tragédia familiar) quanto pela estética (sufocante).

Em O Palhaço, segundo filme que comanda, ele não apenas faz o protagonista, como busca outro rumo, inundando de cor e humor o que antes se anunciava como uma carreira obscura e dramática.

Selton é Benjamim, dono do circo Esperança, que reúne uma trupe maltrapilha e alegremente conformada com uma vida nômade. Além de cuidar das finanças, Benjamim divide o picadeiro com o pai, Valdemar (Paulo José), e juntos formam a dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue. Em crise com sua profissão (fazer rir), Benjamim busca pela sua real identidade (e vocação).

Montado como um road movie circense, O Palhaço registra imagens fora do eixo urbano Rio-SP. A estrutura é ideal para participações especiais inusitadas, como as de Jorge Loredo, Tonico Pereira, Moacyr Franco e Ferrugem. Selton mostra – na frente e atrás das câmeras – um sedutor equilíbrio entre a angústia de um personagem atormentado e a leveza de uma vida cigana abençoada por aplausos.

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Amanhã Nunca Mais, de Tadeu Jungle.

Tadeu Jungle é um artista multimídia que tem excelente trânsito pela publicidade, galerias, videoarte, programas de TV e documentários sobre teatro e literatura. Ele traz um invulgar jogo de imagens e sons logo nas primeiras sequências de seu longa-metragem de estreia.

Conhecemos o anestesista Walter (Lázaro Ramos) e sua esposa, Solange (Fernanda Machado), na praia, num momento de relaxamento que em pouco tempo se transforma em tensão. Retraído, o médico não consegue contrariar amigos, chefes e até mesmo desconhecidos. A vida familiar dele sobrevive aos trancos, até que resolve sair da letargia e propõe buscar um bolo que vai coroar a festa de aniversário da filha dele.

Nessa longa jornada noite adentro, Walter terá que sair de sua existência anestesiada e enfrentar motoboys, uma solitária predadora de homens e outros representantes da fauna de uma grande metrópole.

O tema, claro, não é novo – e a referência mais óbvia é Depois de Horas (1985), de Martin Scorsese. A falta de surpresas de um roteiro com diversas peças soltas e personagens que não funcionam acaba prejudicando a potência de imagens inventivas. Ainda assim, alguns bons momentos despontam quando Milhem Cortaz e Fernanda Machado (explorando com doçura o erotismo de uma dona de casa) estão em cena.

 

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