Abaixo, resenha do livro Eu Não Vim Fazer um Discurso (Record, tradução de Eric Nepomuceno), de Gabriel García Márquez, publicada na edição 62 da revista Rolling Stone (Jô na capa).
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Em uma época em que é muito fácil espalhar ideais e opiniões por diferentes mídias, torna-se recorrente toparmos com discursos de todo tipo, dos tradicionais speeches do presidente norte-americano às exposições de confinados em reality shows. Mas quantos desses textos vão sobreviver longe de um orador competente e/ou do calor do momento?
Em 21 peças escritas e proferidas pelo colombiano Gabriel García Márquez – e agora reunidas em livro – encontramos alguns exemplos da marca de um bom discurso, algo que reúne relevância de tema, qualidade de construção linguística e histórias saborosas.
Ordenados cronologicamente (de 1944, quando o autor tinha 17 anos, até 2007, aos 80), os textos abordam diversos assuntos (processo criativo, militares latino-americanos, homenagens a amigos) e foram proclamados em várias cidades, como Caracas, Havana e Los Angeles.
Certos parágrafos, como aqueles que recitou em Estocolmo, na Suécia, em 1982, ao receber o prêmio Nobel de Literatura, permanecem na memória graças a um belo encadeamento de ideias. Já os discursos que realizou sobre o ofício do escritor (em especial sobre a criação de Cem Anos de Solidão) ajudam a compreender as obras do principal autor do realismo mágico latino-americano.
O lançamento resiste como livro porque se revela uma resumida autobiografia de uma das maiores personalidades da literatura.

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