Agora teremos que agüentar o mantra “então esse é o país que vai sediar a Copa?” até 2014. A frase serve pra tudo, para criticar a violência policial, os pitis de certos grupos do PMDB, as cabeçadas da turma do PSDB, as artimanhas do Teixarão etc. Enfim, virou uma questão política.
Ela raramente se relaciona ao que importa: o esporte. A dúvida deveria ser levantada quando falamos sobre o estado bobalhão da seleção do Mano, a precariedade do nosso atual estilo de jogo, a fragilidade dos craques canarinhos e o descaso de nossa dramaturgia com o futebol.
Terra de grandes cronistas da bola, o Brasil nunca foi pródigo em produzir cinema de qualidade – e em quantidade – retratando o universo dos gramados. Dirigentes, atletas, treinadores, torcedores, a gama de assuntos é imensa. Até mesmo o maior de todos, Pelé, ainda não recebeu algum filme digno – aquele documentário do Massaini é uma piada.
Na hora de elencar produções bacanas sobre o assunto, os mesmos suspeitos de sempre encabeçam a lista – Garrincha, Alegria do Povo, Boleiros etc.
Dizem que filmar futebol é muito difícil. Bem, me parece que beisebol também não é lá muito fácil, e vejam que bonito trabalho de roteiro foi feito com Moneyball, de Bennett Miller – filme muito mais sobre o choque entre o novo e o velho do que propriamente sobre o beisebol.
Heleno, de José Henrique Fonseca, aparece agora para começar a corrigir essa lacuna. Ao tratar de um craque do passado, cortado justamente da última Copa realizada no país, em 1950, ele prova a grandiosidade do manancial de histórias que o futebol – e seus personagens – proporciona.
Com Heleno, a pergunta pode virar um pouco afirmação. Após o filme até dá para pensar “esse é o país que vai sediar a Copa”. Um lugar que produz pensamento e arte sobre essa tragicomédia que é o futebol.
Abaixo, resenha de Heleno publicada na edição 66 da revista Rolling Stone.
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O cinema brasileiro é meio perna de pau na hora de registrar os dramas que movem o futebol. Com raras exceções – como Garrincha, Alegria do Povo (1963) e Boleiros (1998) –, o audiovisual nacional pouco honrou a história trágica e empolgante de craques canarinhos.
Heleno preenche com êxito parte dessa lacuna. Em certa medida, o filme faz para o futebol o que Touro Indomável (1980) fez pelo boxe: injeta paixão na trajetória de um esportista autodestrutivo.
Com brilhante fotografia – em preto e branco – de Walter Carvalho, o longa relata a carreira do jogador Heleno de Freitas, herói do Botafogo carioca nos anos 40. Bonito e mulherengo, seria o avô espiritual dos bad boys dos últimos anos – como Romários e Adrianos, craques conhecidos por treinar pouco, mas jogar muito.
Personagem trágico, ele atingiu o auge e em seguida desmoronou ladeira abaixo por causa de sua violência, jeito intratável e a sífilis – acabou seus dias esquecido em um sanatório.
Contado por meio de vários flashbacks e com uma atuação empolgante de Rodrigo Santoro (que consegue misturar sua porção galã de Hollywood com a fragilidade de seu famoso personagem em Bicho de Sete Cabeças), o filme capta a essência de um jogador que buscava desesperadamente algum tipo de compreensão.

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