Irene é mulher de um presidiário e vive em Los Angeles. Enquanto o marido cumpre pena, ela cuida sozinha do filho pequeno e começa a flertar com o misterioso vizinho, um sujeito que usa sempre a mesma jaqueta e trabalha numa oficina mecânica. Ao se aproximar cada vez mais do cara que mora ao lado, ela começa a achar que a maré pode mudar. Quem sabe Irene conseguirá até mesmo ser feliz?
Sissy é cantora e vive temporariamente na casa do irmão, Brandon, em Nova Iorque. Deprimida e com algumas tentativas de suicídio no histórico, ela faz uma bela apresentação de New York, New York num bar chique, transa com o chefe babaca de Brandon e tenta não estragar as coisas. Dessa vez pode ser que Sissy consiga dobrar o irmão e finalmente viver numa família. Sim, ela acha que as coisas estão mudando para melhor. Estão, não estão?
Irene e Sissy são a mesma pessoa: Carey Mulligan. E poderiam ser a mesma personagem. Cada uma sendo destruída numa costa norte-americana. Quem diz que Irene não se mudou para Nova Iorque para tentar de novo? Sissy é apenas o seu nome na noite do lado leste do sonho americano.
De fato, ligando as duas temos apenas o rosto iluminado de Carey Mulligan, a garota que surgiu potente em Educação (2009, de Lone Scherfig), sendo saudada como uma nova Audrey Hepburn, mas que agora me parece representar com genialidade uma certa condição feminina contemporânea.
Camille Paglia e Xico Sá formariam uma boa dupla para explicar de forma pop a complexidade da presença física de Carey Mulligan. Na ausência deles, arrisco uns palpites.
Britânica, 26 anos, Mulligan surgiu em 2005 em Orgulho e Preconceito (que também iluminou Keira Knightley, outro ser curioso que vale análise posterior – esticando mais um pouco, as duas também fizeram um par dos mais melancólicos e perturbadores em Não me Abandone Jamais).
Depois de alguns papéis na TV, seu lançamento mesmo aconteceu em Educação, com roteiro hypado do escritor Nick Hornby.
Até então, ali estava uma garota em formação. Invulgar, sem dúvida, inteligente e carente. Muito carente. Tanto que vira presa – não tão fácil – de um conquistador.
Depois foi a garotinha de Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme, de Oliver Stone. Passou meio em branco – como o filme (apesar de ser bom). Ali o que interessava era a força da grana e dos machos. Então, o drama da menina que vivia nas alturas ficou sem espaço.
Mas agora, com essa improvável ponte entre Drive e Shame, Mulligan se firma – em filmes predominantemente masculinos – como uma marca, a face de um conceito sobre o que é ser mulher no século 21.
Nos dois longas, mesmo sendo independente, ela quer ser protegida. Seus olhos transpiram carência. Frágil, mas esperta, se encontra perdida no meio da crise dos homens.
Pois aí está. Como aquelas que não têm a boca de Angelina Jolie sobrevivem? E as pequenas sem o rebolado da Gisele? Como viver sem operações plásticas, peitos bufantes e testas esticadas? Cadê aquelas meninas que não são mulheres ricas?
Carey Mulligan é essa garota normal, que não encontramos nem naqueles comerciais da Dove.
Seu jeito “de mocinha da padaria”, seu corpo que não sai em revista, seu choro sincero nos comovem. Acho que Kate Winslet também seria uma dessas atrizes que vão marcar nosso tempo. Mas Kate é uma celebridade e talvez isso tire um pouco esse lado mundano.
Corrigindo o que falei lá atrás, realmente Mulligan faz hoje o papel que Audrey Hepburn encarnou em Bonequinha de Luxo (1961). Ela dá voz para um tipo pedestre, falível, ciente de sua sensualidade, mas desesperadamente carente.
Mulligan vive entre nós. É a menina sozinha que precisa de alguém. O problema é que os homens estão encrencados.
Em Drive, como se não bastasse o marido preso, o possível amante (Ryan Goslin) é um daqueles machos sem rumo, mergulhados numa trama violenta.
Em Shame, sua salvação seria o irmão, tão doente (a palavra vai meio jogada, desculpe Contardo) por sexo que é castrado emocionalmente. Se o sangue do sangue está nem aí, imaginem os outros bombados do pedaço?
O homem, impregnado de problemas, não consegue mais parar e resolver a carência da Mulligan. Sintoma do nosso tempo?
E para completar a farra, a atriz já nos deixou uma cena clássica. Sua interpretação de New York, New York em Shame – que o diretor Steve McQueen teve a bondade de deixar inteira – nos comove mais do que quatrocentas finais do American Idol.
Ali está a mulher, querendo ser a rainha do pedaço, a número um, mas Nova Iorque não deixa; nem Los Angeles, São Paulo, Tóquio…
Carey Mulligan nos diz muito. Espalhem a notícia.

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