“Os Imperfeccionistas”

Parece incrível, mas no século passado as pessoas queriam ser jornalistas. Eu mesmo resolvi cursar a faculdade de jornalismo porque acreditava que poderia me tornar aquele sujeito carismático, persuasivo, talentoso e meio mau caráter – do bem.

Ainda sou do tempo em que bloquinho numa mão, cigarro na outra e certas idéias na cabeça formavam o uniforme do profissional da imprensa.

Quando tinha meus 15, 16 anos, minha visão da profissão era um retrato de Hildy Johnson e Walter Burns em A Primeira Página (1974) – mas sem os chapéus. Interpretados por Jack Lemmon e Walter Matthau, respectivamente, os dois tinham uma intensa vibração pela notícia – e consequentemente pela palavra escrita. Claro, no fundo não passavam de uns calhordas, sacaneando todo mundo. Mas tinham uma paixão imensa pelo jornal, e isso parecia abafar todo o resto – hoje parece que o processo se inverteu, ficando a trapaça e esquecendo a paixão.

Dirigido por Billy Wilder a partir de um texto de Ben Hecht e Charles MacArthur, A Primeira Página me impressionou tanto que lembro de produzir um pequeno artigo exaltando os filmes que falavam sobre jornalismo. Citava precariamente os suspeitos de sempre, como A Montanha dos Sete Abutres (outro de Wilder, só que de 1951), Jejum de Amor (de Howard Hawks, de 1940 e também baseado na história de A Primeira Página), Todos os Homens do Presidente (Alan J. Pakula, 1976) etc. e tal.

Enfim, ainda era uma época (finalzinho dos anos 80) em que os jornalistas “como de antigamente” pareciam ser possíveis. Era só você ligar a TV e o Matinas Suzuki aparecia fazendo comercial da Folha de S.Paulo e soltando fogos porque o jornal vendia mais de um milhão de exemplares aos domingos. Juro que essas duas coisas aconteciam – o Matinas falava as manchetes e o jornal (em papel!) vendia horrores.

Hoje, quando parece que o jornalismo sumiu junto com a máquina de escrever, num curioso caso de associação indevida, difícil achar um jornalista brasileiro que não seja melancólico ou meio estúpido – ou melancolicamente estúpido.

Trocamos aquela energia da dupla Jack Lemmon-Walter Matthau pela tristeza de Russell Crowe e Rachel McAdams em Intrigas do Estado (nem sei se alguém viu esse filme, mas é bonito).

Em quem a molecada que escolhe o jornalismo como mote de vida vai se espelhar? Pelo menos no Brasil, as coisas andam meio paradas.

Lá fora, ainda existe esperança com uns frilas desavergonhados, alguns punchs e – ainda bem – a cópia do estilo dos grandes, como Gay Talese (vivo e serelepe), Norman Mailer, Didion, Wolfe, Hunter Thompson, Capote etc. – muitos editados por aqui por um selo da Companhia das Letras capitaneado por quem? Justamente, Matinas Suzuki.

Então já que o corpo está esfriando mesmo, vale muito ler Os Imperfeccionistas*, de Tom Rachman (Record, tradução de Flávia Carneiro Anderson). O livro poderia virar uma série de TV (como citou Raquel Cozer outro dia em seu blog) e, se o mundo fosse justo, seria dirigida por Billy Wilder.

É o primeiro livro de Tom Rachman – que foi correspondente da Associated Press em vários países e editor do International Herald Tribune em Paris – e mostra a tristonha e perturbada vida de onze pessoas envolvidas intimamente com um decadente jornal de língua inglesa editado em Roma.

Cada capítulo traz a rotina desses personagens contaminados pela solidão, fracassos amorosos e frustrações profissionais. O livro pode ser apreciado como uma sucessão de contos intercalados por textos em itálico que contam a trajetória do diário.

Em comum, todos os personagens enfrentam algum tipo de crise ou mudança de vida. Perfilando redatores, repórteres, editores e até mesmo uma idiossincrática leitora, Rachman despe o jornalismo de qualquer aura heróica, sem uma nota de autocomiseração, encarando com dureza – mas também com graça – esse momento capital da imprensa.

Coisa fina mesmo, lascando bastante ironia em cima da decadência de todos nós.

Como contraponto, a mesma Record publicou, em 2010, A Turma que Não Escrevia Direito (tradução de Bruno Casotti), de Marc Weingarten, que conta a trajetória dos gigantes do Novo Jornalismo norte-americano. Serve como consolo para esses tempos difíceis.

* Parte desse texto foi publicado na edição 67 da revista Rolling Stone.

 

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