Kerouac, Capote e a matemática das adaptações

Quem foi que disse que um livro bom sempre dá um filme ruim? Não sei se a coisa é tão simples, mas há uma combinação mortal nesse jogo perigoso das adaptações literárias. A matemática é complicada, porém a equação me parece correta. Vejam se o cálculo faz algum sentido:

Livro bom + leitura antes de ver o filme + diretor que pretende ser fiel e resume o livro = filme morno

Sempre. Aí você pode calcular todas as variações possíveis. Mas se a leitura foi porreta, você realmente se envolveu com a trama e estilo, dificilmente o cinema consegue superar essa experiência. Seja pela escalação do elenco (nada do que você imaginava), a trilha, o corte de alguns personagens, o resumo das cenas… Nada se equipara a uma grande leitura.

Quando vejo que adaptaram um clássico das bibliotecas e comentam que o roteirista foi fiel, eu sinceramente torço para não ter lido o livro, pois fatalmente vou sair do cinema me lamentando.

Então é o seguinte: para fazer um grande filme, o sujeito precisa mudar tudo, escolher sequências, misturar personagens, fazer um bem bolado danado. Não tem jeito. Como diria o filósofo: cinema é cinema; literatura é literatura.

Aqui vão dois livros magistrais sobre como é necessário estilhaçar uma obra literária para encontrar um roteiro cinematográfico.

O primeiro é Kubrick – De Olhos Bem Abertos, de Frederic Raphael (Geração Editorial). Bela crônica do roteirista de Eyes Wide Shut, o último filme de Stanley Kubrick. Claro que ficamos apenas com a versão de Raphael, mas estão lá todas as dores e loucuras de mexer (mudar até mesmo a época em que se passa) num livraço – no caso, Breve Romance de Sonho, de Arthur Schnitzler.

O outro é mais plural e divertido. Quinta Avenida, 5 da Manhã, de Sam Wasson, destrincha tudo o que aconteceu antes de começarem a rodar Bonequinha de Luxo, o filme de Blake Edwards de 1961.

Roteirizado por George Axelrod a partir do livro de Truman Capote, o longa consagrou Audrey Hepburn e até hoje recebe saudações por aí. Porém, muita coisa foi simplesmente inventada e alterada, causando horror em Capote.

Eis o que o escritor disse para um jornalista décadas depois da estreia do filme: “Eles não fizeram nada do que me prometeram. Eu recebi dezenas de propostas pelo livro, de praticamente todo mundo, e vendi a esse grupo da Paramount porque eles prometeram coisas, fizeram uma lista de tudo e não mantiveram nada. No dia em que assinei o contrato, eles viraram as costas e fizeram exatamente o oposto. Chamaram um diretor horrendo como Blake Edwards, em quem eu era capaz de cuspir!”.

Então é isso. Se você tiver medo de desagradar o autor do romance, melhor nem pensar em fazer uma adaptação – Bonequinha… é um filme bem redondo.

E agora podemos conferir Na Estrada nos cinemas, dirigido pelo Walter Salles. É mais um episódio dessa briga. Abaixo, resenha publicada na edição 70 da revista Rolling Stone.

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Adaptação do mítico On the Road, romance beat de Jack Kerouac lançado em 1957, Na Estrada finalmente aparece nas telas depois de uma imensa jornada pelas mentes de vários figurões de Hollywood.

Walter Salles, diretor brasileiro íntimo de road movies, focou no sumo do livro: as aventuras do trio Sal Paradise (Sam Riley), Dean Moriarty (Garrett Hedlund) e Marylou (Kristen Stewart) pelas cidades e estradas norte-americanas no final da década de 40 do século passado.

Há acertos para transformar o longa em um agradável passeio pela geografia sentimental desses três jovens bárbaros. A escalação do elenco é primorosa; a fotografia de Eric Gautier capta com elegância as matizes da América e a trilha mantém o pique jazzístico e improvisado da vida desses sonhadores.

Fazendo um competente resumão das 320 páginas datilografadas, o roteiro de Jose Rivera nos conduz pela melancólica passagem para a vida adulta.

Porém, Na Estrada parece ficar no meio do caminho, pincelando rapidamente grandes questões, atolando na mesmice, sem nos arrebatar ou contagiar com a energia que Kerouac exalava quando batucava nas teclas.

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