Um toque para as comédias nacionais

Sempre é tempo de combater a mediocridade. Contra a idiotice de certos filmes, vale receitar um pouco de sutileza, doses de leitura e mais paciência na hora de escrever os diálogos.

As comédias nacionais, por exemplo, estão de lascar. Mesmo quando há boas intenções nos roteiros, tudo acaba indo para o inferno. Falta pegada, ritmo, sacadas.

Os caras vêem os longas produzidos pelo Judd Apatow – que também às vezes erra bem – e acham que é fácil, basta copiar e boa. Pois é. Conferindo Os Penetras (estreia em breve), por exemplo, do Andrucha Waddington, fico com aquela dúvida chata: fazem isso de propósito ou simplesmente não sabem fazer outra coisa?

Porque não é possível cometer tanta barbaridade, tantos erros e soar tão precário. Diante de certos mamutes do humor brasileiro, fico com vontade de ser atingido por um meteoro no meio da exibição. Assim acabam logo com a agonia.

Às vezes é puro desconhecimento. Não acham que dá para fazer de outro jeito, que é possível pensar e escrever um roteiro surpreendente, engraçado.

Não sei, mas aposto que falta leitura para o pessoal. Eles têm que ver mais filmes, ler mais livros, sair mais na rua, sei lá. Mas do jeito que está, não dá – e parece que só piora, contrariando o Tiririca.

Sei que é demais pedir uns toques de Lubitsch nos textos, mas dá para caprichar um pouco e inventar um jeitinho pessoal.

Então tento aqui um serviço de utilidade pública e transcrevo trecho do livro Ninguém É Perfeito – Billy Wilder, de Charlotte Chandler. Apesar da tradução esquisitona da Landscape, é leitura obrigatória para quem pretende escrever roteiros.

Abaixo, um momento em que Billy Wilder tenta explicar o que é o “toque de Lubitsch” num exemplo dado para estudantes:

“Há um rei, uma rainha e um tenente. O rei é interpretado por George Barbier, um ator bastante corpulento de sessenta e poucos anos, a rainha é Miriam Hopkins, que é muito bonita, e o tenente, Maurice Chevalier, que à época era muito jovem e bonito.

Gostaria que dramatizassem a seguinte situação: a rainha tem um caso com o tenente, e o rei descobre. Façam como quiserem, (…) mas ninguém no mundo conseguiria uma solução melhor do que a que o sr. Lubitsch usou na abertura de O Tenente Sedutor.

Abrimos no quarto do rei e da rainha. Ele está se vestindo. Há um pouco de carinho no nariz e cócegas, e tudo é muito fofo. Depois, ele sai do quarto. À porta, vemos Maurice Chevalier com uma espada. Batendo os calcanhares, ele observa o rei que desce uma grande escadaria, bum, bum, bum.

Em seguida, corta novamente para o sr. Chevalier, que entra no quarto da rainha e fecha a porta atrás de si. Não cortamos para o interior do quarto. Isso é muito importante.

Voltamos para o rei. Ele percebe repentinamente que esqueceu o cinto e a espada. Dá meia volta e sobe a escadaria em direção ao quarto.

O rei abre a porta do quarto, entra, e a porta fecha-se atrás dele. Ainda estamos do lado de fora, no corredor, jamais dentro do quarto.

O rei sai e está com o cinto e a espada. E está sorrindo. Desce novamente a escadaria, bum, bum, bum, e o cinto não é dele. É pequeno demais.

Lá volta ele novamente. E, é claro, encontra Chevalier debaixo da cama, certo? Mas tudo é feito sem muito alarde. Isso é o toque de Lubitsch.”

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