“Django Unchained” mostra que a ficção ainda pode corrigir as atrocidades da história

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Todos os países merecem um cara como Quentin Tarantino. Não apenas para movimentar polêmica ou atualizar os gêneros cinematográficos, mas também para cutucar a história de cada região.

Cabe aqui o desejo de um cineasta metralhando na tela os milicos, mostrando uma guerrilha dos anos 70 capaz de vingar todos aqueles que foram torturados e sepultados pelo regime militar. Não seria cool? Onde mais essas coisas tão divertidas, inteligentes e absurdas caberiam?

Tarantino também mostra que a realidade não está com essa bola toda. Há muito espaço para a ficção fazer das suas – e, por que não, corrigir a história.

Além disso, o sujeito é um tremendo narrador, daqueles que nos deixam saturados de referências e inovação.

O roteiro de Django Unchained, o mais recente filme de Tarantino, tem 170 páginas (2h45 de duração na tela), dezenas de bifes (longas frases, quase monólogos) e muitas descrições saborosas. Quase arrisco dizer que ler o texto é tão prazeroso quanto assistir ao filme – certamente as páginas são mais convidativas para quem não suporta violência, tiros e sangue, muito sangue.

Tarantino, com certeza, é um daqueles sujeitos que contrariam a regra – justíssima, por sinal – de que um roteiro muito bom de ser lido “como literatura” dificilmente dá um grande filme. Pois roteiros seguem certos padrões de escrita que impedem – ainda bem – o pleno gozo proporcionado por um livro. Mas Tarantino está aí para quebrar toda e qualquer conduta. Então, seu texto sobrevive com graça e desenvoltura mesmo longe da tela. Ele consegue costurar todo a trama, ser absurdamente claro, erguer a estrutura e ainda enfiar nos cantos muito estilo e frases de efeito.

Para quem gosta do ofício de escrever, Django Unchained é uma lição e tanto – idiossincrática, verdade, mas nunca idiota. Vale ler (aqui) o calhamaço antes de ver o filme e também depois, checando as viradas, a entrada dos personagens e o delirante balé das palavras.

Tarantino é um gigante na hora de construir personagens e, principalmente, dar nomes e frases memoráveis para cada um – além de resgatar carreiras, como faz com Don Johnson aqui.

Neste novo filme, ele parte de uma marca clássica e bastante conhecida, o Django, pistoleiro interpretado por Franco Nero (que aparece em uma cena) em 1966 no longa de Sergio Corbucci. Porém, este é apenas o início do remix, o começo de um divertido e fantástico caso de “vingança histórica” patrocinado pelo mestre.

Depois de usar o cinema – literalmente – para matar Hitler na obra prima Bastardos Inglórios, agora Tarantino dá uma banana para John Wayne e elege seu Django (Jamie Foxx) como um vingador raivoso e destemido, capaz de semear de balas o homem branco opressor – e estamos falando dos EUA dois anos antes da Guerra Civil.

Tarantino se apropria do faroeste (ao lado dos musicais, o gênero mais famoso da maior indústria de entretenimento da América) e resolve contar os fatos não como foram, mas como deveriam ter sido. Então, nada mais justo do que colocar um ex-escravo combatendo a opressão ao lado de um europeu, o dentista e caçador de recompensas dr. King Schultz – numa esplêndida e memorável encarnação de Christoph Waltz, que conseguiu sair de um alemão nojento, o Hans Landa, para um alemão adorável.

Já os norte-americanos branquelos soam todos como o patético e odiável Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, fazendo mais um desses malucos que lotam sua filmografia), dono de terras visivelmente perturbado, com pendor para frescuras e o responsável por infernizar a vida da dupla de anti-heróis.

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Como escreveu A.O. Scott numa excelente crítica no NY Times (quando compara Lincoln, do Spielberg, com Django Unchained), Tarantino trucida o mito do gênero, que invariavelmente partia da premissa “homem branco precisa resgatar mocinha das mãos dos índios”. Aqui, temos “homem negro precisa resgatar mocinha das mãos dos brancos”. Um plot tão simples quanto necessário – e genial.

Há três partes tremendamente distintas no filme – o que colaborou para algumas marretadas da crítica nos EUA. Todas, temos que reconhecer, carregam uma direção precisa, elegante, com Tarantino fazendo divertidas passagens de cena, explorando com muita pertinência seus personagens e usando com enorme desenvoltura – e anacronismo – a trilha sonora (um mix de Morricone com mash-up de James Brown, Tupac etc.).

A primeira levada, bem humorada e no ponto certo, com toda a verve nos diálogos, mostra a amizade entre Dr. Schultz e Django. Nesse trecho, o roteiro é todo do doutor e sua ironia europeia e tino comercial aguçado. Para o alemão, a América é de fato a terra dos sonhos, onde pessoas – vivas ou mortas – valem uma boa grana. Business, dude.

Entramos com graça na amizade entre Schultz e Django e nos envolvemos com a trágica história do escravo que pretende resgatar a sua amada Broomhilda (Kerry Washington) das garras de um terrível dragão (DiCaprio). O tom de fábula é irresistível e encantador.

Quando, na segunda parte, finalmente a vingança começa, entra em cena (na página 70 do roteiro) Calvin Candie, o pitoresco senhor de escravos. Sua aparição indica um mergulho em águas mais sinistras e violentas, de sadismo explícito. Seu lance de estreia é numa Mandingo Fighting, uma espécie de luta livre sem nenhuma farsa em jogo. Mas como desistir agora quando já fomos fisgados?

A partir daí, a tensão começa a se tornar insuportável. O público vira uma panela de pressão, tendo que suspirar alto para aliviar um pouco o nervosismo concentrado em suas entranhas. Tarantino fecha o filme numa sala de jantar para, com bastante lentidão, construir um desfecho inevitavelmente sangrento.

Porém, mesmo procurando elevar a tensão ao seu máximo, ainda há espaço para momentos cômicos e românticos (outro dos truques de Tarantino), principalmente com a presença surreal do criado Stephen (Samuel L. Jackson, irreconhecível e irrepreensível).

Então, a violência explode levando todos nós. Paradoxalmente, é com certo alívio que percebemos que o banho de sangue vai começar. Com a frase “desculpe, não resisti”, Dr. Schultz dá início a sequências de carnificina absolutamente cinematográficas. Afinal, não é pra isso que estamos numa sala de cinema assistindo a um filme de Tarantino?

Essa terceira parte ainda me provoca certas dúvidas. Claro, há tanta violência ali quanto em qualquer bobagem como Os Mercenários 2. Porém, o gosto estético é tamanho que sentimos um assustador prazer com a chacina. Ao pintar de sangue de mentira uma típica casa sulista, é como se estivéssemos jogando videogame, vibrando com gosto. A plateia ri (de nervoso?) dos tiros e assiste pelos cantos dos olhos aos lances mais macabros. Talvez tudo seja suportável porque sabemos que Django irá sobreviver (não é spoiler, basta seguir a lógica do roteiro). Como? Aí reside a dúvida. E isso nos leva por todo esse espetáculo.

A frase do Dr. Schultz (“Não resisti”) pode muito bem ter sido a piscadela de olho de Tarantino para todos nós. O diretor também não consegue ficar sem derramar sua estranha sabedoria norte-americana, seu gosto pela morte – ele mesmo é sacrificado numa cena estranhíssima, quando aparece fazendo um sotaque australiano e sendo o único péssimo ator do filme.

Suportando ou não esta terceira parte, ficamos com a sensação da necessidade de um revisionista sacana como Tarantino, de alguém capaz de quebrar tantas linhas e fronteiras.

Bem que alguém poderia se animar e dar uma patada em certos trechos da história brasileira.

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