Liberdade para “Argo”

Argo, film of the week

No fim, a pior coisa que podia ter acontecido para os produtores de Argo foi ter recebido o Oscar de melhor filme das mãos da primeira-dama Michelle Obama. Para uma turma um tanto rústica, essa história acabou com a festa – para a conspiração ser completa, só faltou a blogueira Yoani entregar a estátua de melhor roteiro, que o longa de Ben Affleck também levou pra casa.

Parece que descobriram agora que a obra é exclusivamente política e perniciosa. Tem gente por aí escrevendo que Argo não passa de propaganda para Affleck se eleger senador; e que o longa é um imenso comercial da CIA patrocinado pelo governo dos EUA – tudo acompanhado de perto por Obama, claro.

Jura? Não há dúvida que Argo, Django, Lincoln – só para ficar nos exemplos do Oscar – reescrevem a história. Alguns, como Tarantino, resolvem mudar tudo; outros, como acontece com o filme de Spielberg, dão um jeito de concentrar fatos, inventar personagens e jogar bastante molho na narrativa.

Argo fica no meio desses dois casos: ele inventa e aumenta. E daí? Segundo alguns, Ben Affleck não poderia ter feito isso. Por quê? Aí é que a coisa complica. Pelo que eu entendi, não dá para brincar com a história se o governo norte-americano vence no final.

O enredo vocês já sabem (ou podem relembrar aqui). Como minha aproximação com as obras cinematográficas acontece a partir do roteiro, eu estou curtindo essa discussão toda.

A briguinha ideológica está servindo para a gente entender melhor como funciona a escrita de um roteiro (área tão pouco pensada no Brasil, infelizmente).

O jornalista Álvaro Pereira Júnior publicou na Folha de S.Paulo um artigo interessante sobre o caso (aqui), em que compara a reportagem que inspirou o filme com o resultado final na tela.

Um trecho que fala justamente sobre a criatividade do roteiro me chamou a atenção: “Podem-se criticar as liberdades tomadas pelo roteirista, Chris Terrio. Mas não as vejo como falsificações históricas. São artifícios legítimos para impulsionar a narrativa. O filme não é um documentário. Apresenta-se como ‘baseado em fatos reais’. Não engana ninguém”.

Ótimo. Claro que existe uma ideologia em Argo – goste-se ou não dela. Mas em nenhum momento há alguém nos dizendo que aquela é a versão definitiva dos fatos. Aliás, o cerne da obra é justamente mostrar que tudo não passa de uma grande enganação.

Dentro dessa nova leva de discussão, o texto mais estranho que li em português está na Carta Capital desta semana. Rosane Pavam assina um treco esquisito com o título “Direto da Casa Branca”. Pelo que entendi, ela detona Argo por causa da narrativa e também devido aos aspectos ideológicos.

Depois de um início conturbado, tentando comentar a frase de Tarantino sobre “o ano dos escritores”, Pavam procura motivos para a presença de Michelle Obama na festa (para os paranoicos, parece que ela escreveu pessoalmente – e com gotas de sangue – o nome de Argo no envelope).

Quando discute Argo, Pavam diz: “… Argo perde-se em um simulacro do cinema de aventura dos anos 1980, aquele que dera ao mundo De Volta para o Futuro, de Robert Zemeckis, ou Indiana Jones, de Steven Spielberg. Esses eram vencedores dos corações e mentes do período ao insinuar, com brilho narrativo, que um americano médio poderia vencer a espada oriental da tirania com apenas um carro veloz e uma bala de revólver. Mas Argo não está nem lá, na crítica histórica fundamentada, nem cá, nos filmes de ação eletrizantes da era Reagan”.

Legal. Apesar de eu achar que as homenagens são outras (Affleck, para mim, fala sobre os blockbusters do final dos 70, com Darth Vader etc.), pelo menos ela tenta se aprofundar na narrativa.

O problema aparece depois, quando Pavam passa a destruir as invenções de Affleck e seu roteirista. Gosto especialmente desse trecho: “Isso sem contar que sequências inteiras essenciais à ação cinematográfica, como a visita ao mercado de Teerã, a inspeção no aeroporto e a perseguição ao avião da Swissair por iranianos em veículo policial (no filme, é como se os carrinhos evocassem as espadas afiadas dos orientais diante do revólver de Indiana Jones) jamais aconteceram”.

Carrinhos que evocam espadas afiadas diante do Indiana Jones?

Mas só fui entender mesmo a reserva da articulista em relação ao filme depois que li o que a ela escreveu sobre Lincoln. Logo depois de cutucar Argo, ela elogia a obra de Steven Spielberg assim: “O filme, que deu ao protagonista Danuel Day-Lewis seu terceiro Oscar, sofre de excessivas palavras. No entanto, procura reescrever a história com outra intenção, a de mostrar como a política americana vem justificando a obtenção de fins justos por meios duvidosos desde pelo menos a Guerra Civil”.

Ah, tá, então é assim. Como confiar numa análise crítica de alguém tão contaminado pela cegueira ideológica?

Observem a ressalva que ela faz ao filme sobre o ex-presidente norte-americano que libertou os escravos: “Entre todas as escrituras elogiadas por Tarantino, talvez essa tenha sido a melhor, embora durante todo o filme não seja incluída a correspondência do admirador Karl Marx a Lincoln, nem se mencione o interesse do presidente norte-americano nas teorias do pensador alemão”.

Não é sensacional? A escrita de Tony Kushner (roteirista de Lincoln) não é tão boa porque deixa pra lá as cartas do Marx.

Desconfiem de críticas que são desonestas, pois parecem ser embasadas em elementos puramente cinematográficos, mas querem mesmo atacar a ideologia da coisa – o que não é ruim, quando bem feita.

Volto para a coluna de Álvaro Pereira Júnior, mais precisamente num ponto que agora serve como um recado direto para o texto da Carta Capital: “Patriotada americana, conspiração pró-CIA etc. Os críticos movidos só por ideologia podem atirar todas essas pedras em Argo. Só não podem negar o ritmo e a consciência do roteiro. No arcabouço do cinema comercial de Hollywood, difícil fazer melhor”.

Só não concordo que é difícil fazer melhor, mas no resto, fecho com o jornalista. E depois de rever o filme, continuo achando que ele desce o cacete nos poderosos e na burocracia governamental. No fim, Argo é bem esquemático, mostrando a luta de um indivíduo contra o sistema (tem coisa mais Hollywood do que isso?). Não há novidade conspiratória nenhuma aí.

Como diriam aqueles sapecas: argo fuck yourself.

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