MIranda July, hipsters e “The Future”

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Eu demorei uma década para deixar de rir quando alguém se apresenta dizendo que é “artista performática”. Achava o título vago e, ao mesmo tempo, pretensioso. Como se a pessoa fosse naturalmente espetacular, sem precisar fazer nenhum esforço – e nem saber de fato o que significa ser “artista performático”. Era como se jogassem na minha cara que o sujeito era o que ele era, e isso bastava.

Não conheci tantos assim, mas já conversei pelo telefone com uma espécie de musa dessa turma: Miranda July (para mais esclarecimentos sobre ela, leiam esse perfil publicado no NY Times).

Na época, a Agir estava lançando por aqui o livro de contos de July, o intrigante – e bom demais, pra falar a verdade – É Claro que Você Sabe do que Estou Falando (tradução de Celina Portocarrero). Há pelo menos um texto clássico na obra: “Equipe de Natação”.

Eu vinha de uma experiência traumática em relação aos trabalhos da autora. O primeiro longa-metragem que ela dirigiu, Eu, Você e Todos Nós (2005), tinha me causado náuseas – literalmente. Tinha visto o filme numa sessão da Mostra Internacional de Cinema, na primeira fileira, e com um público provavelmente do fã-clube de July (e essas coisas existem). Aquela mistura de gritinhos hipsters com as imagens de um peixe em cima de um carro – é a única coisa da qual me lembro – foi me deixando enjoado.

Só de escrever o parágrafo anterior já fico de estômago virado, pensando na tortura que foi ver aquele filme cheio de ironia, disfunções encenadas e personagens irritantemente esquisitos.

Com certeza eu estava na fileira daqueles que odeiam a mulher. Ela desperta um verdadeiro Fla-Flu, com gente escrevendo blogs como I Hate Miranda July e outros defendendo a artista com unhas, dentes e risadinhas safadas.

O problema é que li o livro e fiquei com raiva porque a garota (mesmo com 37 anos, ela tem aquela cara de anjinho barroco e ingênuo, sem idade definida) sabe escrever. Seria mais fácil se validasse a minha tese – não lembro qual era, mas com certeza sacaneava a artista.

Para piorar, durante a entrevista ela foi solícita, interessante e me fez rir algumas vezes. Ainda mostrou dúvidas genuínas e pareceu estar se divertindo. Saco. Por alguns minutos pensei estar me apaixonando por uma “artista performática”.

Nunca revi Eu, Você… e, provavelmente, o filme não é tão ruim assim. Talvez seja até ótimo. Ele ganhou o prêmio Camera D’Or em Cannes e o crítico Roger Ebert o colocou como um dos melhores dos anos 2000. Enfim, tem credenciais.

E agora – faz dois anos, mas como aqui no Brasil as coisas demoram para dar as caras – July fez seu segundo longa, The Future.

Para um sujeito que sempre buscou se vacinar contra esse negócio, a trama não poderia ser mais assustadora: envolve um gato que fala, um casal de hipsters em crise e conselhos amorosos vindos diretamente da Lua. Sério?

Pensei que meu caso de amor com a July tinha ficado ali naquela prazerosa ligação telefônica e jurei que não encostaria em The Future.

Mas aí a Companhia das Letras lançou nesses dias O Escolhido Foi Você (tradução de Celina Portocarrero), mistura de livro de entrevistas, autobiografia e aulas de dramaturgia.

Enquanto escrevia o roteiro de The Future, July enfrentou um bloqueio criativo. Sem saber como continuar sua história, teve uma daquelas iluminações que soam patéticas, mas resultam em obras visceralmente interessantes.

Ao ler os anúncios do jornalzinho popular PennySaver, ela resolveu ligar para algumas daquelas pessoas e tentar entrevistar cada uma.

July via alguém anunciando filhotes de gatos-de-bengala, entrava em contato com o anunciante e cavava um encontro. Depois, queria conversar com um sujeito que pretendia vender uma jaqueta por dez dólares. E assim seguiu.

Dez entrevistas depois e ela conseguiu um livro (com excelentes capítulos), histórias para seu filme e um baita ator (Joe, que interpreta ele mesmo e a Lua em The Future).

Claro que achei o trabalho inspirador e muito triste. Pensei na solidão, na condição humana e outras bobagens. As fotos que acompanham os textos são aterradoras. Eu me senti um daquelas patetas.

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Mas que droga. Tive que ver The Future.

E cá estou escrevendo coisas positivas sobre essa artista performática. O filme é curioso (no bom sentido), com sequências marcantes e diversas sacadas – e o gato que fala, Paw Paw, é convincente!

Acima de tudo, The Future é sombrio e triste – muito triste. Embaixo de toda aquela coreografia bizarra, temos apreensão e medo. Medo de ficar sozinhos, medo de enfrentar nossos desejos, medo de estarmos sendo ingênuos, medo de bancarmos os panacas num mundo que só quer herois.

Eu não ri nem me diverti. Claro, fiquei encantado, mas pensando que July estava me contando uma fábula moral pesada, profunda, como eram as histórias antes de Walt Disney. No fim, a mocinha é esquartejada e o lobo arrota a vovozinha. Alguma coisa por aí.

Matutei um pouco e li esse artigo de Christy Wampole publicado na revista Serrote. Ali ela comenta sobre todas as coisas que os hipsters podem ser, principalmente quando o assunto é ironia.

Eu concordava com tudo. Mas como encaixar Miranda July nessa parada, com aquela carinha de hipster melancólica, escritora, cineasta e artista performática, mas séria, bem séria?

O mundo é um lugar cheio de surpresas.

Até os hipsters podem cortar nossos corações.

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