“Filma muito” é o equivalente ao “fala muito”, expressão que o técnico Tite usou para censurar as bravatas do Felipão. O treinador do Corinthians quis dizer que o adversário deveria parar de esbravejar e provar em campo suas qualidades.
Pois escuto bastante por aí especialistas comentando que Steven Soderbergh “filma muito” – assim acontece com Woody Allen também. O tom é pejorativo. Parece ser impossível lançar com competência mais de um longa por ano.
Entendo a provocação – a frase é só isso, uma brincadeira. Porém alguns críticos realmente levam esse chiste a sério e recebem com má vontade um novo trabalho de Soderbergh. Quem estipulou o tempo ideal para se fazer um longa? Kubrick era genial só porque levava mais tempo para planejar suas obras?
Pra mim, “filma muito” é um baita elogio. O sujeito cumpre na tela o que promete.
Nos últimos dois anos, Soderbergh lançou quatro filmes: Contágio, Haywire, Magic Mike e Side Effects. Todos interessantes, firmes em seus propósitos e com histórias envolventes. Não tenho do que reclamar.
Para quem acha Soderbergh um chato, a boa notícia é que Side Effects foi anunciado como seu último longa-metragem feito para o cinema. Para esses mesmos detratores, a péssima novidade é que ele já está com filme novo em Cannes (Behind the Candelabra, que será exibido pela HBO) e promete que será ainda mais profícuo realizando projetos para a TV.
Fico na torcida para que ele volte a usar a tela grande como meio. Com o diretor fora das salas, o público dos cinemas perde uma narrativa sempre competente, capaz de tocar com desenvoltura temas contemporâneos – alguns chamam isso de “oportunismo”.
Nesse seu mais recente projeto, ele se debruça sobre a indústria farmacêutica e a atual onda depressiva que parece dominar o planeta. Com todas essas possibilidades de finais – da história, das utopias, do mundo, de nós -, encontramos um lamento em cada esquina. Sorte da turma que produz remédios capazes de domar essa tristeza.
Jude Law interpreta o psiquiatra Jonathan Banks, que receita de bom grado pílulas da felicidade para os pacientes que frequentam seu consultório em Nova Iorque. Ele topa até mesmo participar de pesquisas para entender como as pessoas reagem a novas drogas.
Sua vida parece estável, sem a tal nuvem negra da preocupação, até medicar Emily Taylor (Rooney Mara). Ela supostamente já tentou o suicídio e vive momentos de tensão com o marido (Channing Tatum), um sujeito misterioso que acabou de sair da cadeia após cumprir pena por crimes financeiros.
Com a anuência de Banks e de sua antiga terapeuta, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones), Emily passa a tomar Ablixa, um novo e potente antidepressivo – fizeram até mesmo um site para o composto fictício. A partir daí, todos sentirão os efeitos colaterais da droga.
Apesar de se anunciar como um filme de denúncia, capaz de cutucar a indústria farmacêutica (como O Jardineiro Fiel, por exemplo), logo Side Effects se revela um legítimo representante do modelo hitchcockiano.
Saímos da seara médica e corporativa para mergulhar numa história intrigante sobre culpa e injustiça.
Como num bom exemplar do suspense psicológico, só podemos ficar presos no cinema torcendo para que o mocinho consiga provar a sua inocência.
Portanto, a questão dos remédios é apenas um oportuno MacGuffin para uma excelente história envolvendo ganância, ambição e desonestidade.
Como escreveu A.O. Scott, mais uma vez Soderberg está falando sobre os efeitos do sistema capitalista (o marido ser um especulador é um belo toque) e da nossa paixão pela grana.
Essa abordagem de um tema tão espinhoso a partir do suspense me parece magistral. Melhor do que um “filme-denúncia”, o diretor constrói uma terrível observação sobre nosso cotidiano. Quantos não estão usando as fraquezas do corpo humano para atitudes mesquinhas e trágicas? Quais as reais motivações dessa crise psicológica mundial?
O roteiro de Scott Z. Burns, que também escreveu Contágio e The Informant! para Soderbergh, consegue apresentar diversas surpresas sem derrubar as boas coisas que já tinham sido erguidas. Ele articula muito bem os gêneros, tanto passando com credibilidade as informações de uma reunião de psiquiatras como elaborando a tensão de um assassinato.
Para completo horror de quem acha que Soderbergh abusa de seu talento, ele também assina a fotografia (com o pseudônimo de Peter Andrews), deixando o céu nublado, colaborando para a atmosfera pesada do longa e transformando Nova Iorque numa espécie de Londres mais gananciosa.
Filma muito.

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