#nãotevecinemanemséries

 

heleno

Terra de grandes cronistas da bola, o Brasil nunca foi pródigo em produzir cinema de qualidade – e em quantidade – retratando o universo dos gramados. Dirigentes, atletas, treinadores, torcedores, a gama de assuntos é imensa. Até mesmo o maior de todos, Pelé, ainda não recebeu algum filme digno – aquele documentário do Massaini é uma piada.

Na hora de elencar produções bacanas sobre o assunto, os mesmos suspeitos de sempre encabeçam a lista – Garrincha, Alegria do Povo, Boleiros, etc.

Dizem que filmar futebol é muito difícil. Bem, me parece que beisebol também não é lá muito fácil, e vejam que bonito trabalho de roteiro foi feito com Moneyball, de Bennett Miller – filme muito mais sobre o choque entre o novo e o velho do que propriamente sobre o beisebol.

Heleno, de José Henrique Fonseca, aparece para começar a corrigir essa lacuna. Ao tratar de um craque do passado, cortado justamente da primeira Copa realizada no país, em 1950, ele prova a grandiosidade do manancial de histórias que o futebol – e seus personagens – proporciona.

Após o filme até dá para pensar “esse é o país que vai sediar a Copa”. Um lugar que produz pensamento e arte sobre essa tragicomédia que é o futebol.”

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O texto acima foi escrito neste blog em 2012 e hoje lanço a #nãotevecinemanemsérie.

A Copa está aí, seguindo os melhores prognósticos, com média de 3,4 gols por jogo, umas partidaças de lamber os beiços, craques honrando a fama e a política se metendo no campo.

E nada disso parece reverberar na nossa dramaturgia. Se o gringo quiser curtir um cineminha e encarar uma obra nacional decente sobre os boleiros ou a corrupção da Fifa, ele terá que pensar em outra coisa. O último jogador a mostrar o país nas telas foi o Tufão, em Avenida Brasil.

Para deixar o placar ainda mais humilhante, o filmaço deste ano sobre nossa modalidade esportiva favorita veio da… Argentina. Campanella destruiu nossas carrancas com a divertida e empolgante animação Metegol.

Por que isso acontece? Até quando teremos que citar como exemplos do cinema futebolístico nacional aquela turma manjada e mais O Ano que Meus Pais Saíram de Férias e Linha de Passe? É pouco. Não dá pra escalar onze filmaços.

Tudo bem, eu ainda não citei Os Trapalhões e o Rei do Futebol e, pra mim, um dos mais divertidos: Onda Nova, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins (uma completa piração, abaixo o clássico amasso de Caetano num táxi).

A Folha publicou faz pouco tempo um ótimo dossiê em que entrevistou escritores para saber o valor literário do futebol. Vale a pena dar uma olhada.

Mas o saldo é triste para o audiovisual, pois com o lançamento de O Drible, de Sérgio Rodrigues, as letras ganharam um craque e uma referência contemporânea – enquanto as telas continuam sem ter um time para colocar em campo.

Na TV, com as séries, a situação é pior. É uma várzea só, tanto que a HBO produziu uma história sobre um juiz, (fdp). Um ponto de vista interessante ou um drible porque não há bons roteiros sobre jogadores?

Também houve o juvenil Brilhante F.C. para mostrar o futebol praticado pelas meninas.

Não é curioso? Meninas, juiz e nenhum ex-jogador em crise, um anti-herói caprichado (todos os craques são), um dirigente sacana, um treinador com TOC, sei lá.

Como dizem por aí, fica a dica: uma reportagem especial sobre a relação entre o audiovisual nacional e o futebol.

Enquanto isso, vamos de filmes ingleses e documentários sobre nossos clubes do coração. É o que resta.

Em tempo: não li, mas o crítico Luiz Zanin Oricchio destrincha o tema neste livro. Talvez encontremos as respostas.

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