Jia Zhangke: por que você faz cinema?

small-A-Touch-of-Sin-Stills-Da-Hai-Jiang-Wu-06-Copyright-Xstream-Pictures-Beijing

A única pergunta fundamental para um diretor é: “Por que você faz cinema?”.

Numa noite chuvosa, fria e trágica (pela manhã o jato de Eduardo Campos tinha se espatifado em Santos), o cineasta chinês Jia Zhangke demorou três horas para responder essa questão.

Convidado pela organização de uma mostra completa de seus trabalhos (mais informações aqui), o diretor e roteirista de 44 anos falou sobre sua vida e seus filmes para quase cem pessoas que se acomodaram numa sala de um centro cultural de Pinheiros, em São Paulo.

Discreto, tranquilo e vestindo sapatos e blazer pretos, o diminuto Jia Zhangke começou sua apresentação lembrando o quanto a capital paulista é parecida com Pequim – pelo menos em relação ao trânsito e ao clima daquela noite.

Pregado numa cadeira chique, dessas com um espaldar gigantesco que transforma qualquer um num bichinho indefeso, ele tomou chá (parecia, pelo menos) e se dirigiu quase sempre à tradutora, que simpaticamente dizia desconhecer os cineastas que o chinês citava (ela causou gargalhadas quando falou: “Jean-Luc Godard… Vocês conhecem? Eu não.”).

Na fileira da frente, Zhao Tao, esposa e musa de alguns dos trabalhos dele, tirava fotos do evento e desfilava classe num sobretudo marrom.

Vi O Mundo numa mostra de cinema e ainda sinto o gosto daquela sensação de observar algo único, sensível e capaz de nos impactar com imagens marcantes. Além da beleza das cenas, havia um subtexto fascinante e surpreendente. Foi como visitar uma cidade famosa pela primeira vez.

Plataforma, Em Busca da Vida e o recente Um Toque de Pecado são, por motivos diferentes, grandes filmes. Uma coisa eles têm em comum: essa digna e honesta tentativa de Jia Zhangke se expressar pelas imagens.

Apesar de aparentemente falar de improviso, 180 minutos depois do início de sua fala percebemos o quanto ele foi preciso.

Suas histórias são divididas em três partes: a infância ainda sob o guarda-chuva da revolução cultural de Mao; a juventude em Pequim e os primeiros ensinamentos na escola de cinema; e finalmente um apanhado de toda sua obra, quando ele detalha como surgiu cada um de seus filmes.

É sempre fascinante e curioso (apesar de também muitas vezes soar confuso) passar horas escutando a melodia de uma língua que você não entende e tentando acompanhar a tradução para o idioma que você domina (a tradutora ainda formava as sentenças numa espécie de portuchinês, com frases como “palente que mola no intelior”).

Jia Zhangke, como todo grande realizador generoso, não apenas respondeu com talento e precisão a pergunta do primeiro parágrafo deste texto, como também me fez ficar com outra na cabeça: “Por que eu não faço cinema?”.

Abaixo, alguns trechos do que esse sujeitinho genial comentou em sua aula.

jia

RÁDIO

Ao escutar canções de uma rádio de Taiwan, que conseguia pegar em sua cidade, Fenyang, ele tomou contato com uma expressão artística poética e surpreendente. Como as emissoras da China são controladas pelo governo, Jia sempre ouvia as músicas que invariavelmente falavam sobre o povo e as condições sociais. Quando percebeu que fora do seu país existiam pessoas que cantavam coisas metafóricas como “a Lua representa o meu coração”, ficou encantado.

TV

Filho de professores, Jia se lembra do frisson que foi assistir aos episódios da novela brasileira A Escrava Isaura na sua primeira TV.

TRIGO

Duas revelações importantes aconteceram num campo de trigo. Ao ver aquela folhagem dourada refletindo o sol, ele observou a beleza estética do infinito. Milhares de pés de ouro se esparramando até onde a sua vista alcançava. Porém, logo descobriu que teria que cortar tudo aquilo. Destruir o lindo campo era o seu trabalho.

DESTINO

Quando era adolescente, ele se envolveu com um homem que tentou roubar um relógio enquanto comprava um bilhete de cinema. O sujeito foi preso e pegou uma sentença de sete anos. Jia, ao perguntar para o ladrão por que ele tinha feito aquilo, ouviu a resposta: “Eu não sei”. A indecisão do homem o intrigou. O sujeito tinha feito uma coisa sem pensar e assim mudou toda a existência dele. Jia passou a raciocinar sobre o destino e os pequenos momentos nos quais agimos de um jeito e alteramos nossas vidas para sempre.

DANÇA

Ele viu sete vezes o filme Breakdance e achou que seu caminho era se expressar pela dança. Porém, depois de dançar, continuava triste. Então acreditou que tinha mais coisa para dizer – só os passos no palco não eram suficientes – e começou a escrever poesias.

VESTIBULAR

Resolveu estudar desenho porque não precisava ser um expert em matemática para passar no vestibular. Também acreditava que deveria tentar uma arte que não dependia da escrita, pois há milhões de analfabetos na China (e ele queria atingir a maior quantidade possível de pessoas).

TERRA AMARELA

Resolveu trocar desenho por cinema depois que assistiu ao filme Terra Amarela, de Chen Kaige. Ficou fascinado por descobrir que sua terra natal tinha virado assunto de um filme. Para ele, o cinema ganhava importância pois conseguia juntar pessoas e aumentar o rosto dos personagens, que sempre pareciam enormes na tela.

ACADEMIA

Penou três anos para entrar na academia de cinema. Não sabia nada, mas tinha uma vantagem: conseguia escrever bem. Teve aulas com professores vindos da França, EUA, Japão e Rússia. O primeiro filme que viu na escola foi um pornô japonês. Logo mergulhou nos filmes e achou que os chineses filmavam burocraticamente e de forma falsa, com os atores agindo teatralmente. Ele queria levar a realidade para as telas.

MESTRES

Com Yasujiro Ozu, ele aprendeu que o mais importante nos filmes é a relação entre as pessoas. E toda a sua ligação com os espaços vem do italiano Michelangelo Antonioni e do alemão Rainer Werner Fassbinder.

ROTEIRO

Jia escreve uma primeira versão de seus filmes rapidamente. Depois, procura as locações e onde irá filmar, modificando o roteiro segundo essas escolhas. Ele continua alterando o texto enquanto acontecem os ensaios e filmagens. Aposta no naturalismo e na fala e dialeto dos atores.

POR QUE VOCÊ FAZ CINEMA?

Filme é a forma mais bonita de mostrar a vida.”

Fazer um filme é um jeito de me fazer pensar.”

Fazer filmes é a maneira que eu encontrei de procurar a liberdade.”

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑