De quem você rouba as ideias?

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Sou um apreciador de livros sobre roteiros e roteiristas. Alguns títulos (principalmente os manuais) tenho por puro fetiche, já que pretendo formar uma biblioteca razoável sobre o assunto. Outros são lidos mesmo como autoajuda (e aqui uso a palavra como um oximoro, copiando o conceito de Mohsin Hamid na abertura de seu livro Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente).

Na segunda categoria, tenho diversas bíblias, mas aquela que mais me alimenta é Conversations With Wilder, a série de entrevistas que Cameron Crowe fez com Billy Wilder. Tento roubar a maior quantidade de ideias de cada página. Quando leio essas conversas, atuo como um insaciável gatuno, afanando os objetos mais caros primeiro e voltando dias depois para terminar o trabalho e pegar cinzeiros, almofadas e coisas aparentemente sem valor.

Outro dia topei na internet com uma declaração do Woody Allen para a revista Time em 2009. Ele dizia mais ou menos isso: “Oh, eu roubei dos melhores. Quero dizer que eu roubei do Bergman. Eu roubei do Groucho, eu roubei do Chaplin, eu roubei coisas do Buster Keaton, da Martha Graham, do Fellini. Quero dizer que sou um ladrão sem vergonha nenhuma.”.

Maravilhoso. Diga-me de quem roubas e eu te direi quem és. Taí um excelente mantra para nós, roteiristas.

Se Billy Wilder é minha eterna vítima, há muitos que entram sazonalmente na roda.

Nos últimos meses, tenho saqueado demais Louie e as grandes comédias norte-americanas dos anos 30 e 40.

Minhas pretensões criminosas vão tão longe que em breve quero depenar todo Sullivan’s Travels, essa obra-prima de Preston Sturges que está pronta para ser refilmada linha por linha.

Até mesmo um filme despretensioso e gostosinho como Chef, de Jon Favreau, oferece pequenas jóias pra gente cobiçar.

Fazia tempo que eu não via uma obra de Hollywood, dirigida por uma bambambã do mainstream, tão desrespeitosa com qualquer técnica dos manuais de roteiro.

O próprio Favreau interpreta o chef Carl Casper, que atua na Califórnia, mas logo pede o boné do chique restaurante onde trabalha e parte para Miami, onde ganha um trailer para inaugurar um food truck.

E meio que é só isso. Ele ganha a companhia do filho, que precisa reconquistar, e de um amigo imigrante. As coisas simplesmente acontecem. Nada é plantado e colhido, como nos ensinam nos livros e blockbusters.

Pensei durante o filme todo que o food truck iria explodir, o garoto poderia se ferir com uma faca, o chef seria traído pelo melhor amigo, New Orleans se transformaria num oceano de desgraça, Sofia Vergara (a ex-mulher do protagonista) transaria loucamente com o inimigo de Favreau etc. Obstáculos, reviravoltas e loucuras, como estamos acostumados. Mas nada disso acontece. Eis um caso para ser analisado.

Chef é um passeio pela cultura gastronômica da América. Temos Miami com os cubanos, New Orleans com a influência francesa e os texanos e suas carnes defumadas. Além da Califórnia, com sua cozinha fresca. Um manifesto a favor da imigração e da mistura.

Não é uma comédia romântica, mas um road movie de reconquista familiar, de amizade entre pai e filho (com gigantescos comerciais do Twitter).

As excelentes participações (John Leguizamo, Bobby Cannavale, Scarlett Johansson, Dustin Hoffman, Oliver Platt, Amy Sedaris e Robert Downey Jr.) e a trilha sonora completam o cardápio, colocando gingado, cor, temperos e tesão.

E o que roubar disso? Ora, como seria bacana fazer um filme assim no Brasil, percorrendo a nossa culinária. Roteiro? Bom, pai e filho atravessando o país em busca de um prato maravilhoso que só existe na mente deles. Sei lá.

Só não rouba quem não assiste aos filmes, não acompanha as séries ou não lê. E essa falta de pilantragem faz mal para muitos produtos audiovisuais.

Claro, tem muito ladrão de galinha por aí, que simplesmente ataca os lugares errados, pegando ideias sem nenhum valor. Ser um bom ladrão é uma arte. Mas isso é outra conversa.

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