Garota Exemplar, de David Fincher, funciona em vários níveis.
O roteiro de Gillian Flynn, baseado no livro de mesmo nome também escrito por ela, consegue recortar com muita precisão as mais de quinhentas páginas da obra original (aqui uma minúscula resenha).
O filme não apenas mantém os misteriosos – e divertidos – focos narrativos encontrados no livro, como consegue mesclar nas suas duas horas e meia a sátira com o thriller. Além disso, sua obsessão pelo plot – e não pelo complexo desenvolvimento dos personagens – transforma Garota Exemplar num dos mais interessantes produtos de entretenimento dos últimos anos.
Recentemente, quantas vezes a gente conseguiu de fato se divertir no cinema sem precisar de robôs, vilões espaciais, zumbis ou efeitos incompreensíveis?
Nesta ótima entrevista para a Rolling Stone, Flynn explica o que tentou manter, como foi cortar personagens fascinantes e relata o alívio que sentiu quando soube que David Fincher iria dirigir o projeto. Fazendo uso do trocadilho: um exemplo de adaptação.
Ficamos tão presos na quantidade de informações, que pouco ligamos para uns pequenos “furos de geladeira” (aquilo que só vamos descobrir depois que a gente assistiu ao filme, quando lembramos dele na madrugada ao buscar um copo de leite na cozinha) e ao brutal enfraquecimento dos pais dos protagonistas da trama.
De qualquer maneira, aqui está uma frase que recomendo: leia o livro, veja o roteiro e assista ao filme.
Garota Exemplar cumpre o que promete e nos preenche com um perspicaz “quem matou” (ou melhor: “quem sequestrou”). Numa camada, a história relata o desaparecimento de Amy (Rosamund Pike) e como o marido dela, Nick (Ben Affleck), reage ao mistério.
Ela foi assassinada? Por quem? Ela simplesmente forjou o próprio sumiço? Por quê?
Logo algumas dessas questões são substituídas por outras, pois dois lances narrativos se acumulam, gerando um aumento no volume de dados – e na diversão.
A história passa a ser contada com o ponto de vista de Nick e também de Amy; e mais, os flashbacks começam a nos relatar como era a vida conjugal dos protagonistas.
Assim, navegamos de um filme de suspense (como Atração Fatal ou Dormindo com o Inimigo) para uma espécie de Um Corpo que Cai, um estudo sobre as relações matrimoniais falidas – e os papéis que interpretamos num casamento e até mesmo na sociedade.
David Fincher, mestre da sobriedade e CDF (aqui ele nos conta como sempre foi apaixonado pelo cinema e sua vida de projecionista), acabou realizando uma contundente e pertinente obra sobre a manipulação.
Com as entradas dos policiais (a excelente dupla feita por Kim Dickens e Patrick Fugit), do advogado (Tyler Perry), da imprensa e de um ex-amante de Amy (Neil Patrick Harris, num registro assustador), Garota Exemplar passa a ser uma deliciosa sátira sobre como manipulamos e somos manipulados – muitas vezes sem ter consciência desse processo.
Mas o tom segue “Fincher-esque”, ou seja, estranhamente sombrio.
Excelente diretor de diálogos e um arguto observador das relações sociais (não à toa seu grande sucesso com A Rede Social), Fincher consegue lotar seu filme de sabores e personagens, sem nunca nos perder.
Como ele faz isso?
Talvez seu grande mérito seja o de perceber a exata duração de uma cena. É impressionante o controle que ele tem da trama por simplesmente cortar na hora certa ou esticar um tanto um papo descontraído entre irmãos.
Também é preciso mencionar a trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, capaz de injetar suspense até na imagem de um gatinho fofo tocando piano.
Da mesma maneira que o filme vai – com bastante segurança – para muitos lados, as críticas podem também apontar diversos problemas (como essa da New Yorker). Talvez o principal seja o que acontece com Amy, muito bem desenhada no livro, mas que perde motivações na tela e vira apenas uma… bom, não posso escrever muito por causa do trauma dos spoilers.
Porém, é impossível negar a gostosa engenharia da trama e o grande interesse que Fincher consegue impor na história e nas reviravoltas.
Quanto ao elenco, Rosamund Pike e Ben Affleck também se dão bem, com seus rostos banais transitando de forma harmônica entre a fama e o anonimato, entre manipular e ser manipulado.
Tudo funciona bem direitinho em Garota Exemplar.

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