A porrada do cinema

sem pena

O escritor Julio Cortázar uma vez disse que romances ganham por pontos, enquanto contos devem vencer por nocaute.

Então aproveito as palavras do mestre para mencionar que filmes ganham por nocaute, enquanto séries vencem por pontos.

Claro, nem toda obra audiovisual tem essa capacidade de ser um Muhammad Ali, Joe Louis ou Sugar Ray Robinson e sempre vencer. Mas, principalmente quando a gente passa por mais uma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, não há como ficar em pé depois de uma porrada bem dada numa sala de cinema – destaco Leviatã, O Pequeno Quinquin, A Gangue e Acima da Nuvens no quesito roteiro.

Sempre acho que ver um filme é como morrer de forma trágica e repentina. A gente está lá vivendo a vida tranquilinho, comendo pipoca e tomando refri, e então pumba! Um filme começa, a noite cai, não reconhecemos mais ninguém ao nosso lado e mergulhamos naquele mundo onírico.

O projetor é a metáfora perfeita da tal luz no fim do túnel.

Quando eu era criança, escutava pessoas comentando que “viram a luz branca” no hospital. Eu ficava feliz, pois achava que o paciente tinha visto algum filme incrível.

Não à toa há essa expressão de “ver o filme da própria vida” antes da morte. Estar dentro de um cinema é presenciar a morte imediata. Melhor: com enormes chances de ressuscitar depois de algum tempo (umas três horas hoje em dia, já que os filmes parecem estar aumentando de tamanho).

Já acompanhar uma série é como morrer aos poucos, ficar em estado vegetativo por anos, cultivar um coma daqueles – tanto que às vezes pedimos logo a eutanásia.

Então, num filme sucumbimos imediatamente; numa série, falecemos aos golinhos.

O grande lance dos seriados norte-americanos atuais foi perceber que os longas não estavam mais dando conta de nos arrebatar (e arrebentar). Começamos a sair dos cinemas só pensando na pizza, na vida – e nunca na morte e na tragédia da existência. Deixamos de morrer nas salas de cinema – ou, pelo menos, não perdemos por nocaute com tanta frequência. Algumas lutas passaram a ser de mentirinha, chatas e sem pegada.

As séries preencheram esse espaço e começaram a ganhar por pontos e por nocaute, numa nova louca e insana regra.

Imaginem uma luta em que necessariamente você precisa ter 12, 13, 26 rounds. A luta tem que chegar a esse limite. E em cada round há um nocaute. Ah, e se um lutador empacotar, tudo bem, você pode colocar outro no lugar.

Desse jeito, apostando em invenções, surpresas e ousadias na narrativa, as melhores séries norte-americanas conseguiram criar um novo sistema que desafia aquela minha definição chupada do Cortázar. Elas começaram a vencer utilizando todos os princípios. Nocaute e pontos. Nocaute e pontos. Nocaute e pontos. Na mesma luta!

Porém, vale observar que a TV brasileira ainda não atingiu esse estágio do embate. Poucas conseguem nos convencer e quase nenhuma chega a nos derrubar.

Só que o cinema brasileiro este ano veio com pelo menos seis títulos capaz de socar o público com vontade (dos que eu vi, claro). Há uma urgência e competência nesses seis títulos capazes de derrubar qualquer um. Pow!

Talvez falte para a dramaturgia da nossa televisão esse tom bélico, a imensa garra de comunicar um punch, de nos transformar em poucos minutos de exibição.

No ringue, destacaria:

Sem Pena, de Eugênio Puppo

Eles Voltam, de Marcelo Lordello

Casa Grande, de Fellipe Barbosa

Braco Sai. Preto Fica, de Adirley Queirós

O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa

Todos filmes que, de alguma maneira e por algum tempo, impressionam. Seja por captarem com dignidade o espírito de uma época, como por dialogarem com projetos cinematográficos contemporâneos e eficientes.

Seria possível listar seis séries novas da nossa TV com esse mesmo impacto e dinamismo?

Em 2014 o bom cinema brasileiro ganhou por nocaute e pontos. Só falta agora a aclamação do público.

3 comentários em “A porrada do cinema

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  1. velhão, que massa! vi esses três últimos brasileiros e tb os colocaria em minha lista. sobretudo ‘a vizinhança do tigre’, filme bonito retado.

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