“Whiplash”, “Foxcatcher” e “A Teoria de Tudo”

whiplash

Plena temporada de prêmios e os cinemas começam a ficar abarrotados de filmes interessantes. É só dar uma passada de olho nos guias culturais para duvidar de quem fala que 2014 foi terrível.

Ida, Leviatã, Livre, O Abutre, Acima das Nuvens, Boyhood, Whiplash… Todos ótimos longas em cartaz. Dá para ver um por dia e começar a outra semana com O Segredo das Águas e as próximas estreias – e Birdman vem aí.

O negócio é se mandar para o cinema.

Aos poucos, tento atualizar por aqui algumas impressões gerais sobre alguns desses trabalhos.

Abaixo, resenha de três deles.Os textos de Whiplash e A Teoria de Tudo foram publicados numa versão editada na revista Rolling Stone.

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Whiplash – Em Busca da Perfeição

Com Miles Teller e J.K. Simmons

Dirigido por Damien Chazelle

A maioria dos filmes sobre artistas não está à altura dos seus retratados. Diretores ruins acabam produzindo um curioso efeito: mostram de forma medíocre a genialidade do homem. Não é o que acontece em Whiplash. Em seu segundo longa, Damien Chazelle honra o talento ímpar de seus personagens usando montagem, trilha e fotografia com precisão e energia. Você sente que o filme está no mesmo ritmo de seus protagonistas, lutando para atingir o máximo.

Andrew Neiman (Miles Teller) é um baterista de jazz que estuda num dos melhores conservatórios do mundo, em Nova Iorque. Lá vai encontrar Fletcher (J.K. Simmons), um maestro que se tornará seu mentor e algoz. Algumas perguntas logo aparecem e colocam tensão entre os dois. Há limite para se criar um gênio? Quanto esforço e humilhação precisamos passar para ser o melhor em alguma coisa? Existe conquista sem trabalho duro?  

Chazelle não só dá conta de filmar o jazz, gerando imagens marcantes, como também nos surpreende com a história da relação entre aluno e professor. A trilha mistura clássicos com um repertório original de Justin Hurwitz. Um filme que não atinge a perfeição, mas consegue diversos momentos perfeitos.

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Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo

Com Steve Carell, Channing Tatum e Mark Ruffalo

Dirigido por Bennett Miller

Na primeira olhada no trio de atores que sustenta esse filme é quase impossível não pensar em comédia. Mas cinco minutos depois do início da silenciosa e melancólica sessão, descobrimos que Foxcatcher, na verdade, é tristíssimo. Baseado em fatos reais, conta como o megaempresário do setor químico John Eleuthère du Pont (Steve Carell) montou, na década de 80, uma estrutura invejável em sua fazenda para treinar Mark Schultz (Channing Tatum), campeão olímpico de luta greco-romana. A relação entre os dois evolui rapidamente do lado paternal para algo doentio. Quando o irmão mais velho de Mark, Dave (Mark Ruffalo), entra na jogada, a tragédia de fato se anuncia.

O trio principal impressiona, atingindo um raro nível de excelência em sequências dificílimas. O diretor Bennett Miller já tinha lidado antes com esporte (Moneyball) e a América profunda e perturbada (Capote). Aqui ele parece unir essas duas pontas, mostrando com rigor e imagens dramáticas onde as frustrações e o patriotismo podem terminar.

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A Teoria de Tudo

Com Eddie Redmayne e Felicity Jones

Dirigido por James Marsh

Tudo é improvável nessa bonita cinebiografia. O protagonista é o físico e cosmólogo Stephen Hawking (Eddie Redmayne) que, atacado por uma doença degenerativa ainda jovem, contraria os prognósticos, dribla a morte e se torna popstar. Mas o filme também tem o inusitado ponto de vista de Jane (Felicity Jones), a primeira esposa de Hawking. Estudante de artes, ela surpreende ao embarcar num relacionamento aparentemente falido, mas que duraria décadas e geraria três filhos.

O longa, baseado em livro escrito pela própria Jane, se concentra nessa vida conjugal e injeta humor e inteligência em sequências que poderiam ser desastres dramáticos. O roteiro de Anthony McCarten e a direção de James Marsh buscam nos movimentos circulares e na luz de Cambridge, na Inglaterra, as imagens capazes de organizar o caos que é o universo (e o amor). O destaque é a interpretação de Eddie Redmayne, num trabalho primoroso e já antológico tanto na parte física como emocional, deixando seu personagem cheio de nuances usando apenas um olhar.

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