Chegou aquela hora um tanto ridícula: fazer apostas. Mas como resistir? Tentamos descobrir como a mente dos outros funciona para chutar os vencedores do Oscar. Esse é o tipo de previsão que me diverte. Não jogo nos números nem nos cavalos. Mas brincar com os indicados nas principais categorias é diversão na certa.
Abaixo, algumas teorias.
ROTEIRO ADAPTADO
Jason Hall fez milagre com o livro Sniper Americano. Conseguiu transformar um depoimento patriótico e por vezes arrogante num filme complexo e perturbador. Não vi Vício Inerente, que parece ser um espetáculo e tanto. Mas o trabalho que deve ser premiado é o de Graham Moore. Seu O Jogo da Imitação se tornou o filme careta essencial da temporada. Há um belo ritmo de apresentação de conflitos e problemas. E o simples resgate de uma figura como Alan Turing prova que o cinema ocupa lugar central na memória do nosso tempo. Deve levar merecidamente.
ROTEIRO ORIGINAL
Categoria complicada. Pena que Dan Gilroy concorre justamente no ano de Wes Anderson. O Abutre e O Grande Hotel Budapeste são dois roteiros excelentes. Boyhood corre por fora, pois suas qualidades estão justamente naqueles momentos que burlam a dramaturgia tradicional. Ou isso o transforma no melhor texto? Mas o trabalho de Wes Anderson e Hugo Guinness cresce a cada dia, ganhando mais referências e estilo. Um desbunde.
MELHOR FOTOGRAFIA
Emmanuel Lubezki captou momentos fantásticos em Birdman. Mas vários de seus planos não servem para muita coisa, além de nos lembrar que diretores podem brincar com a câmera. Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski compõem com brilhantismo o seco (mas poético) preto e branco de Ida, realizando um perfeito coffee table book (no melhor dos sentidos; delicioso de olhar). Mas tudo o que Robert Yeoman faz em O Grande Hotel Budapeste é tão orgânico, interessante e imaginativo, que beira o ridículo. Um filme para ser estudado. Vence.
MELHOR EDIÇÃO
Outra categoria com ótimos concorrentes. Gosto da clareza de todos os indicados, principalmente do que Joel Cox e Gary D. Roach alcançam em Sniper Americano. Há até uma montagem no escuro, naquela estupenda sequência na tempestade de areia. Mas Tom Cross edita a música em Whiplash. Do começo ao fim, uma montagem exemplar, dificílima, rica e musicalmente inspirada. Deveria levar. Mas creio que fica com Sniper Americano.
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Seja o que isso significar, se tem “design” na categoria, O Grande Hotel Budapeste pega a estátua.
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Eu sou fã de Planeta dos Macacos: O Confronto. Mas a turma de Interestelar teve que desenhar buracos de minhoca espaciais. Como concorrer com isso? Já pode ir para o palco.
MELHOR FIGURINO
Já que o prêmio sempre fica com filmes de época, nada melhor do que oferecer a honraria para Milena Canonero e seus trajes dos elegantes porteiros e mensageiros de O Grande Hotel Budapeste. Fatura com tranquilidade.
MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
É sério que premiam os cabelos? Justo. São importantíssimos. Nariz por nariz, deixo Foxcatcher pra lá e fico com as loucuras que Frances Hannon e Mark Coulier fizeram com Tilda Swinton em O Grande Hotel Budapeste.
MELHOR TRILHA SONORA
Barbada. Alexandre Desplat concorre com dois filmes: O Grande Hotel Budapeste e O Jogo da Imitação. Sobe ao palco e pega o carequinha pelo trabalho com Wes Anderson, uma trilha impecável.
MELHOR CANÇÃO
Eu entregaria o prêmio para Gregg Alexander e Danielle Brisebois por Lost Stars. Mesmo se Nada Der Certo foi o musical “disfarçado” do ano passado. Um levanta defunto maravilhoso. Mas quem vai vencer é Gloria, do injustiçado Selma.
MELHOR EDIÇÃO DE SOM
São os efeitos de som. Interestelar recria o barulho de foguetes, mas acontece no espaço, onde, nós sabemos, o som só acontece nos ambientes controlados. Sniper Americano, por recriar a angústia de batalhas perdidas, tiros e o perturbador ambiente da guerra, ganha mais um.
MELHOR MIXAGEM DE SOM
Não vão deixar aquela bateria bizarra passar impune. Birdman pega essa.
MELHOR ANIMAÇÃO
Operação Big Hero é bacana e quase chega lá. Mas Como Treinar o seu Dragão 2 tem mais estofo, bons personagens e carisma de sobra. Fica com o peladinho.
MELHOR DOCUMENTÁRIO
Por uma questão política, CitizenFour. Mas é uma categoria de zebras.
MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Timbuktu é por muitas vezes uma obra-prima. A cena da morte no lago e aquela sequência do futebol sem bola merecem ser lembradas para sempre. Leviatã também tem momentos de grande espetáculo. Mas pela história e relevância (além de ser um grande filme também), Ida vence.
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ainda não é a hora de Emma Stone, mas a garota será uma futura Julianne Moore. Apesar de pouco espaço, Laura Dern está magnífica em Livre. Porém Patricia Arquette merece o agrado pela presença em Boyhood.
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edward Norton é um monstro. Quando ele está em cena, temos os melhores momentos de Birdman. Mas JK Simmons faz mais do que ser coadjuvante em Whiplash. Ele é Whiplash. Precisa ganhar.
MELHOR ATOR
Steve Carell sempre foi um ótimo ator (até mesmo de comédias românticas). Então, pra mim, seu show em Foxcatcher não surpreende. Bradley Cooper carrega dúvidas e um físico interessante para Sniper Americano. Eddie Redmayne é covardia. Um belo ator para um personagem complicadíssimo. Mas a Academia deve levar em conta o subtexto de Birdman. E, vamos lá, Michael Keaton está realmente um torpedo. Pega o primeiro lugar.
MELHOR ATRIZ
Dúvidas? Julianne Moore, obviamente. Pena que não pelo Maps to the Stars. Mas tudo bem. É uma atriz fenomenal. Sua vitória aqui, com uma doença grave em Para Sempre Alice, é que vai derrubar o Stephen Hawking de Eddie Redmayne.
MELHOR DIREÇÃO
Num mundo justo, já entregariam o Oscar para Wes Anderson pelo correio. Mas há algumas variáveis aqui. Como acho que devem surpreender no principal prêmio da noite, Alejandro Gonzáles Iñárritu e Richard Linklater aparecem com muitas chances, para compensar. No sorteio: Iñárritu.
MELHOR FILME
Já falei dos indicados aqui. Teremos surpresas. Muitas vezes, a vida só tem graça com apostas. Então, creio que Boyhood será o grande derrotado da noite. Por quê? Isso é absolutamente pessoal. Apesar de gostar muito do filme do Linklater, ele está sumindo nas minhas preferências. E eu coloquei o título como o melhor do ano passado. Num precoce mea culpa, creio que hoje, pelo prazer que tenho em revisitar a obra, O Grande Hotel Budapeste é o melhor filme entre os indicados. Estou torcendo por ele. Mas Birdman pode papar também.

Deixe um comentário