Enquanto flanava pela Livraria Cultura dia desses, encontrei o Armando. Eu estava gripado, com a cabeça latejando e respirava feito um moribundo. Mesmo assim tentei ser simpático e esconder meu desconforto.
Conto um detalhe sobre o Armando: ele não conversa, apenas pergunta. Nunca ouvi o sujeito afirmar nada. Tudo pra ele termina com um ponto de interrogação. Por isso, procurei me esconder no meio daqueles livros de colorir. Não funcionou. Espirrei e lá veio ele carregando suas indagações.
Começou com o tradicional “como vai?”, logo passou para “gripado?” e quando vi já estávamos no “escrevendo muito?”. Entre um lenço e outro, fui discorrendo sobre minha vida até que ouvi uma das perguntas mais sacanas e tenebrosas: “Qual é o seu processo criativo?”.
Nessas horas dá vontade de responder feito o personagem do Ney Latorraca no extinto quadro TV Macho, do saudoso TV Pirata. Por pouco não estapeei o Armando enquanto gritava: “Roteirista não tem processo criativo, rapá! Roteirista vai lá e escreve o que aparecer na telha, mano! Se criação tem processo, como pode ser criativo, irmão!”. Mas fui fofo e soltei apenas um “leio livros de não ficção”. Então comentei que estava na hora do meu antibiótico e dei o fora.
De qualquer maneira, creio que minha resposta foi razoável. Não entendo muito sobre processo criativo. De maneira geral, um roteirista tem uma ideia ou recebe um trabalho, pesquisa sobre ele, pensa sobre ele, escreve sobre ele. Parece simples, mas a gente complica tanto que quase morremos no processo.
O que me ajuda a escrever sobre muitas coisas é a curiosidade. Um bom roteirista geralmente é polímata, capaz de transitar por várias áreas do conhecimento. Assim, além dos tradicionais romances e livros de ficção que a gente adora porque nos ensinam a contar uma história, recomendo que todos devorem obras de não ficção.
Livros de divulgação científica, por exemplo, são meus melhores mananciais para deixar diálogos e histórias mais ricos e cheios de coisinhas curiosas e agradáveis.
Afinal, ao escrever sobre a vida, falamos de comida, morte, sexo, átomos, automóveis, política, arquitetura etc. Quanto mais conhecermos de tudo, melhor para nosso texto.
Abaixo, trecho da introdução de três livros recentes traduzidos para o português que trazem o melhor da não ficção e estão emoldurando muitos dos meus textos atuais.
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“A matemática é uma piada.
Não estou tentando ser engraçado.
Para ‘sacar’ uma piada você precisa exatamente daquilo que precisa para ‘sacar’ a matemática.
O processo mental é o mesmo.
Pense nisso. Piadas são histórias com um contexto e um desfecho-surpresa. Você as acompanha cuidadosamente até o arremate, que o recompensa com uma risada.
Uma peça matemática também é uma história com um contexto e um desfecho-surpresa. É um tipo diferente de história, claro, no qual os protagonistas são números, formas, símbolos e padrões. Costumamos chamar uma história matemática de ‘demonstração’, e o arremate de ‘teorema’.
Você vai acompanhando a demonstração até chegar ao desfecho. Uau! Você conseguiu! Os neurônios comemoram! Um arroubo de satisfação intelectual compensa a confusão inicial, e você sorri.
O ‘ha-ha’ no caso da piada e o ‘a-ha!’ no caso da matemática descrevem a mesma experiência, e essa é uma das razões por que entender a matemática pode ser tão divertido e viciante.”
Alex Através do Espelho (Companhia das Letras), de Alex Bellos, jornalista inglês graduado em matemática e filosofia. Correspondente do jornal The Guardian no Rio de Janeiro entre 1998 e 2003 e autor de Futebol: O Brasil em Campo (Jorge Zahar, 2002).
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“Há pouco mais de duas décadas, o artista e filósofo mexicano-americano Manuel De Landa publicou um livro estranho e maravilhoso chamado War in the Age of Intelligent Machines. Estritamente falando, o livro era uma história da tecnologia militar, mas não tinha nada em comum com o que se espera de algo do gênero. Em vez de relatos heroicos de engenharia submarina escritos por algum professor da Academia Naval, o livro de De Landa combinou teoria do caos, biologia evolucionista e filosofia francesa pós-estruturalista em histórias sobre a bala conoidal, o radar e outras inovações militares. Eu me recordo de ter lido o livro quando era estudante de pós-graduação, aos vinte e poucos anos, e de o ter considerado uma obra completamente sui generis, como se De Landa tivesse chegado à Terra vindo de algum outro planeta com vida inteligente. Pareceu-me ao mesmo tempo fascinante e muito desorientador.”
Como Chegamos Até Aqui (Zahar), de Steven Johnson, definido como “influente pensador”. Vidro, frio, som, higiene, tempo e luz são os temas abordados por ele nesse livro delicioso.
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“Para mim, estar morto não é muito diferente de estar num navio de cruzeiro. Você passa a maior parte do tempo deitado de costas. O cérebro foi desligado. A carne começa a amolecer. Não acontece nada de novo e nada se espera de você.
Se eu fosse fazer um cruzeiro, preferiria um cruzeiro de pesquisa, desses em que os passageiros, mesmo passando a maior parte do dia deitado de costas, também contribuem para o projeto de pesquisa de um cientista. Esses cruzeiros levam passageiros a lugares desconhecidos e não imaginados. Dão a eles a oportunidade de fazer coisas que de outra forma nunca fariam.
Acho que me sinto da mesma forma sobre ser um cadáver. Por que ficar aí deitado de costas se você pode fazer alguma coisa interessante e nova, algo útil? Para cada procedimento cirúrgico habitual, de transplante de coração a mudança de sexo, os cadáveres têm estado ao lado de cirurgiões, fazendo história à sua própria maneira, silenciosos e fragmentados. Faz 2 mil anos que os cadáveres – uns de bom grado, outros involuntariamente – participam das atividades científicas mais audaciosas e esquisitas.”
Curiosidade Mórbida – A Ciência e a Vida Secreta dos Cadáveres (Companhia das Letras), de Mary Roach, autora de livros de ciência. Próxima Parada, Marte (Paralela, 2012), um de seus últimos livros, é uma viagem.

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