Hoje, Josué é um roteirista feliz. Ele e eu nos conhecemos na mais absoluta miséria faz uns 15 anos. Escrevíamos coisas humilhantes e tristes para programas tenebrosos da Rede Record (sim, nada mudou na TV).
Financeiramente não evoluímos nada. Na verdade, pioramos, pois antes éramos chicoteados para roteirizar reality shows e programas de auditório. Mais de uma década depois, ganhamos uns trocados para contar histórias de ficção. A grana é a mesma, toda comida pela inflação. Mas nosso prazer… Quanta diferença. Estamos doidinhos, alegres e sorridentes, porque finalmente podemos batucar a tal dramaturgia e viver disso, sem nos preocupar em escrever o “boa noite” da Adriane Galisteu ou as piadas super legais da bancada do CQC.
“Você viu? Saiu na Veja, amigão. Os roteiristas é que mandam na TV norte-americana. É uma era de ouro. Somos tipo um super-herói”, ele me falou durante uma boa sessão de drinques no Frank, bar do eterno decadente hotel Maksoud.
Agora não estou ganhando nada pra contar isso. Mas naquela noite fiquei bem quieto para não machucar o Josué e perder a animação do companheiro. Afinal, ele estava tão eufórico que não parava de me pagar estupendos drinques. A cada dry martini eu concordava mais com o sujeito. No final do papo, bêbado e já um pouco arrependido, tentei entrar numa das fontes daquele fantástico hall enquanto cantava “sou roteirista com muito orgulho e muito amor”.
Horas depois, chorava sozinho no meu quarto. Eu deveria ter avisado o Josué. Por causa de meia dúzia (ou uma dúzia, não lembro) de refinadas receitas alcoólicas, tinha deixado o amigo iludido.
Claro que deveria ter estranhado: como assim o cara lê a Veja? E essa revista só agora vem falar sobre o poder dos roteiristas na TV norte-americana? E citando David Chase etc. e tal? Um atraso de… décadas? Bom, mas ok. O problema é que o Josué acha que isso também está acontecendo no Brasil. Meu amigo acredita que agora o roteirista é quem manda e ponto final.
Quanta dor no coração ao lembrar do dileto camarada falando que de agora em diante tinha atingido a maioridade e iria controlar seus filmes, suas séries e mandar um monte de produtora para lugares escondidos e fétidos. Eu deveria ter alertado, gritado, jogado meu old fashioned na cara dele, tentando acabar com aquele delírio.
Mas não fiz nada porque ver um roteirista feliz é uma imagem singela e inocente.
Tentarei ser rápido. Dois probleminhas básicos nessa história da gente achar que roteirista finalmente é tão reconhecido e remunerado quanto diretor, produtor e ator no Brasil:
1 É mentira. Os autores de novela conseguem ser essa espécie de showrunner (que participa de todas as decisões do projeto) que existe na TV norte-americana. No resto, é mais fácil encontrar um ararinha zul no set do que um roteirista. Eles não são bem-vindos. Fim.
2 Nem todo roteirista é bom. Reformulando: é muito difícil encontrar um roteirista bom. O Josué mesmo estava todo orgulhoso que agora poderia mandar nas suas coisas. Não pode e não vai. Ainda bem, porque o que ele escreve é péssimo. Portanto, ainda mais essa, só porque você é roteirista, não significa que já pode comandar uma série e automaticamente virar o Nic Pizzolatto (e True Detective nem é tão maravilhoso assim).
O que estou querendo dizer? Mais ou menos o que o Raymond Chandler escreveu num artigo em 1945 para o Atlantic Monthly e que ganhou tradução agora no Brasil no livro O Sono Eterno (Alfaguara).
No texto, a gente encontra uma das melhores definições que já li sobre o que é escrever um roteiro: “O desafio da escrita de um roteiro é dizer muito usando pouco, e depois tirar metade desse pouco e ainda manter um efeito de descontração e de fluxo natural”.
Por algumas páginas, Chandler fala um pouco como foi ser roteirista em Hollywood durante dois anos. É mais ou menos uma aula definitiva sobre como devemos nos comportar. Há problemas no sistema? Sim. Há muito roteirista mercenário? Sim. Há muito roteirista picareta? Sim. Há meia dúzia de caras sensacionais? Sim.
Portanto, desconfiem quando falam que todo roteirista é genial e deveria comandar uma série ou fazer sucesso no cinema. Muitas vezes, a culpa de produtos serem uma bela porcaria é justamente do roteiro, gente.
É um perigo alimentar os Josués porque agora eles acham que tudo o que escrevem necessita de aplausos.
Mais uma do velho Raymond: “Não quero sugerir que em Hollywood não existem roteiristas hábeis. Não há muitos, mas não há muitos deles em lugar nenhum. O dom da criatividade é escasso, e a paciência e a imitação acabam fazendo a maior parte do trabalho. Não há razão para esperar desses operários anônimos da tela uma qualidade de produção que não encontramos nos literatos mais badalados das listas de best-sellers, dos compiladores de romances históricos de quinta categoria que vendem meio milhão de cópias, dos confeiteiros da Broadway que são tidos como dramaturgos, ou dos mestres rabugentos das revistas menores”.
Da próxima vez que for beber no Frank, vou levar o artigo e ler em voz alta. É um banho de realidade.
