O Ronnie Von do futuro

Alguns documentários parecem tão ficcionais quanto a história do Forrest Gump.

Hugh Hefner – Playboy, Ativista e Rebelde narra a trajetória de Hugh Hefner, publisher da revista Playboy, e é tão surpreendente que beira o mockumentary (reportagens inventadas que fingem ser reais, como as de Borat, por exemplo).

Melhor. Em certos momentos parece que estamos fazendo uma viagem ao contrário, indo de volta para o futuro.

Detalhista, um tanto panegírico, cheio de boas declarações e com ótimas falas do próprio coelhão, o filme é uma bela fonte de consulta para jornalistas e interessados na história da imprensa (principalmente a norte-americana).

Mas o que mais me chamou a atenção (e olha que vocês podem imaginar a quantidade de coisas que podem chamar a atenção num longa sobre o fundador da Playboy) foi um programa de TV que Hugh Hefner tinha no final dos anos 50.

Era o Playboy’s Penthouse, algo como o Todo Seu, do Ronnie Von, sem o manto da caretice do novo século.

Transmitido há mais de 50 anos, o show de Hefner se passava num loft. Lá, o cara que estampou a Marilyn Monroe no primeiro número de sua revista recebia amigos, coelhinhas, os bambas do jazz e tomava todas.

Não apenas fazia um grande show com os talentos que tentariam mudar a América nos anos 60, como também espalhava polêmicos assuntos políticos.

Hugh gostava de uma encrenca (pelo jeito isso rende fortuna e pequenas de peitos salientes – fica a dica). Então também cutucava o racismo dos EUA ao permitir em sua penthouse uma urgente integração entre brancos e negros.

É realmente perturbador assistir a trechos do Playboy’s Penthouse e imaginar que o futuro da TV brasileira nos reservaria Big Brother, A Fazenda, preguiçosos programas de entrevistas ou tediosos shows de humor.

Tudo contaminado por um moralismo chatinho e sem nenhuma invenção (de conteúdo ou mesmo estética). Copiamos os projetos errados?

O Ronnie Von precisa ver uns episódios.

Substituir aqueles vinhos da Salton por uns goles de uísque nas pedras; deixar a moçada fumar no estúdio; jogar champanhe naqueles tapetes cafonas; convidar umas meninas espertas que gostam de verdade de ser mulheres.

Só uma coisa parece meio errada na equação. Hoje, não dá pra garantir o sucesso que Hefner atingiu.

Pois não temos Lenny Bruce ou Sammy Davir Jr. dando sopa por aí pra topar uma entrevista e animar de vez o ambiente.

Mesmo assim não custa torcer para que a TV nacional alcance logo esse ousado futuro que esses documentários insistem em nos mostrar.

Um comentário em “O Ronnie Von do futuro

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  1. “…esse ousado futuro que esses documentários insistem em nos mostrar.”
    Que puta imagem você construiu com essa frase. Excelente (e triste).

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