Em uma briga com os atores, invariavelmente o roteirista sairá derrotado.
Está aí o Charlie Sheen atacando o Chuck Lorre (co-criador e roteirista da série Two and a Half Men) e recebendo por isso um milhão de seguidores no Twitter e programa próprio na TV.
Durante oito anos, Lorre e sua turma de escritores alimentaram Charlie, o personagem com mais falhas no caráter (e por isto mesmo irresistível) da série.
Interpretado por Sheen, o texto sem dúvida ganhou um toque autobiográfico e ainda mais graça.
Depois da briga pública entre Sheen e Lorre, o ator vai perder o salário de US$ 1,2 milhão por episódio, mas em compensação faturou uma impagável projeção na mídia.
Agora, imaginem se um roteirista chamasse sua principal estrela de “pequeno verme contaminado”.
Bastaria um meio sorriso da criatura para enfiarem o criador nas profundezas da geladeira televisiva e nas notas de rodapé da história.
Não tem jeito. Aqueles que aparecem, que transformam o texto em imagem, sempre vão levar vantagem na hora de um fight com quem primeiro pensou nas palavras.
Mas os roteiristas têm seus pequenos métodos de vingança. Talvez menos impactantes e sem grandes vantagens financeiras, porém igualmente ardilosos.
Uma de minhas histórias preferidas sobre o tema está no livro As Entrevistas da Paris Review (Companhia das Letras). Novamente vem do trecho que capta uma conversa com Billy Wilder.
Ele fala sobre como foi escrever o filme A Porta de Ouro, no início dos anos 40, com seu parceiro habitual na época, Charles Brackett, e da vingança que planejaram após um desaforo do ator Charles Boyer.
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“Para A Porta de Ouro, tínhamos escrito a história de um homem tentando entrar como imigrante nos Estados Unidos sem os papéis necessários.
Charles Boyer, que interpretava o protagonista, chega ao fim da linha, está com a roupa do corpo e sem dinheiro num hotel imundo – o Esperanza – na fronteira, em Mexicali ou Calexico.
Está deitado numa cama piolhenta, segurando uma bengala, quando vê uma barata subindo pela parede e por um espelho pendurado ali.
Boyer aponta a bengala para ela e diz: “Você, espere um minuto aí. Onde pensa que vai? Onde estão seus papéis? Não tem? Então não pode entrar”. A barata tenta contornar a ponta da bengala e o personagem de Boyer o impede.
Um dia, Brackett e eu estávamos almoçando num lugar em frente aos estúdios da Paramount. Escrevíamos, naquele momento, o terceiro ato.
Quando levantamos da mesa para ir embora, vimos Boyer, a estrela do filme, sentado com um almoço à francesa servido à sua frente, o guardanapo enfiado no colarinho, na mesa uma garrafa de vinho tinto aberta. Paramos ali e dissemos: “Charles, como vai?”.
“Ah, estou bem. Obrigado.”
Embora ainda trabalhássemos no roteiro, Mitchell Leisen, o diretor, já havia iniciado as filmagens. Falei: “E o que vocês vão filmar hoje?”.
“Estamos fazendo a cena em que estou na cama e…”
“Ah! A cena com a barata! É uma cena maravilhosa.”
“Sim, bem, resolvemos não usar a barata.”
“Não usar a barata? Ah, Charles, por que não?”
“Porque a cena é idiota. Disse isso ao Leisen e ele concordou comigo. De onde vocês tiraram a ideia de que um homem pode conversar com um troço que não lhe responde?”
Aí Boyer olhou para fora, pela janela. E foi isso. Fim de papo. Voltando ao escritório para continuar a escrever o terceiro ato, disse a Brackett: “Aquele filho da puta. Se ele não quer falar com a barata, não vai falar com ninguém!”.
Demos o menor número de falas que pudemos ao personagem… Ficou praticamente de fora do terceiro ato.”

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