Sem ver Obama, mas com “Restrepo” e “Trabalho Interno” nos cinemas

O Obama já foi, mas as crises do presidente norte-americano continuam espalhadas por aqui. Os documentários Restrepo e Trabalho Interno – ainda em cartaz – são formalmente diferentes. Porém tratam da mesma maneira crítica e profunda as diretrizes econômicas e políticas dos Estados Unidos.

Assistir aos dois filmes é um exercício que exige musculatura. Ambos resistem aos chamados ficcionais de um Michael Moore, por exemplo. Não há atenuantes (ou poucos, pelo menos). O horror aparece de maneira abjeta e inescapável. Finais felizes, personagens edificantes, senso de justiça… São coisas que não aparecem em nenhum dos longas. Ficamos diante de um mundo sem máscaras, petrificados ao ver a grande tragédia da existência. Sem anestesia, embarcamos num terrível trem fantasma patrocinado pela maior potência do mundo. “Yes, We Can” vira apenas mais uma piada de péssimo gosto. Precisamos de estômago e força para acompanhar essas histórias.

Trabalho Interno, de Charles Ferguson, ganhador do Oscar de melhor documentário, traz depoimentos de responsáveis pela crise de 2008 (também conhecida como A Grande Marolinha) que derrubou os mercados mundiais, quebrou bancos e mergulhou o planeta no fantasma da Grande Depressão de 29. Acadêmicos, jornalistas e economistas também dão os seus pitacos. Para amarrar tudo, Matt Damon tenta explicar com sua narração como funciona a Bolsa de Valores, o mercado imobiliário, o jogo entre grandes empresários, papéis do governo etc. Didático e dinâmico, é um memorável trabalho jornalístico; o sonho de qualquer coleguinha de redação que um dia imaginou escrever aqueles cadernos “Entenda a Crise” (e que resultam, na maioria das vezes, apenas em folhetos infantis). Ferguson é critico, sem se tornar partidário, propondo reflexão e debate. Um sujeito que viu o inferno e voltou para avisar que a chapa ainda está bem quente. Os malvados continuam soltos; Obama não conseguiu se impor e nova crise pode derrubar o touro de Wall Street a qualquer momento. Como dormir com um tilintar desses?

Restrepo, de Tim Hetherington e Sebastian Junger, vai para outra trincheira. Não temos depoimentos de especialistas, gráficos precisos ou a voz de Damon para nos dar segurança e entendimento. Na guerra, o caos financeiro parece até divertido. Restrepo é um posto avançado do exército norte-americano no vale de Korengal, no Afeganistão. Conhecido como um dos lugares mais perigosos do mundo, o lugar recebe durante um ano 15 soldados dos EUA. Eles tentam intimidar os moradores e providenciar segurança para engenheiros construírem uma estrada no local. Hetherington e Junger acompanham a rotina do pelotão. E só. Sem Cavalgada das Valquírias ou qualquer imaginação, penetramos num universo incompreensível. O que eles estão fazendo ali? Como resolver esse conflito? Quais os interesses dos EUA? Perguntas que o mister Google não consegue resolver. Um angustiante passeio pelo mundo militar.

Obama veio aqui falar sobre os esforços para diminuir a bronca dos empresários nacionais com o protecionismo norte-americano. Ao mesmo tempo, telefonou para as tropas e ordenou mais um ataque de seus soldados. Agora, a Líbia é o alvo. Economia e guerra. Trabalho Interno e Restrepo. Pena que muitos não conseguiram entrar com a elite brasileira no Municipal do Rio para assistir ao pronunciamento do presidente. Mas nos resta o discurso do cinema – estudantes pagam meia – para tentar entender o mundo.

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