As lições de Proust, Cézanne e Henrietta

Jonah Lehrer e Rebecca Skloot escrevem sobre ciência. Mas fogem do frio fato científico. Em seus artigos, mitocôndrias e príons ganham voz e se tornam heróis, salvando a humanidade mais vezes que presidente norte-americano em filme-catástrofe.

Para conquistar os leigos, os autores não fazem fábulas com neurônios falantes ou transformam espermatozóides em pequenos Woody Allens como no longa Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar. Eles somente contam histórias acrescentando dados biológicos e químicos. São narradores capazes de nos entreter ao descrever uma mitose; fazer rir ao percorrer os caprichosos caminhos da memória; emocionar ao elucidar a inesgotável complexidade de um código genético.

Proust Foi Um Neurocientista (Best Seller, tradução de Fátima Santos), de Lehrer, parte da vida e obra de oito artistas – um pintor, um poeta, um chef, um compositor e quatro romancistas – para mostrar como a arte antecipou descobertas da ciência.

Em seus capítulos, entendemos como o chef Auguste Escoffier desconfiou da existência de um quinto gosto básico – chamado de umami, “delicioso” em japonês – reconhecido pelo nosso paladar; nos pegamos vivendo uma grande aventura ao lado do compositor Igor Stravinsky enquanto ele inventava a música moderna e elucidava os caminhos do som no cérebro; tentamos imaginar um novo universo a partir das visões e quadros de Cézanne; e, claro, para compreender o fluxo da memória, acompanhamos Proust na degustação de uma madeleine.

Lehrer é editor da revista Wired, colaborador de importantes publicações norte-americanas, tem um blog que causa polêmica entra os pares e trabalhou no laboratório do neurocientista Eric Kandel, vencedor do Nobel. Um currículo bacanudo que não apenas estampa de forma eloqüente a orelha de um livro. Quando ele narra passagens da biografia dos artistas escolhidos, veste tudo com bastante elegância, descrevendo com graça as sessões de Gertrude Stein com Picasso ou a rotina do poeta Walt Whitman; joga luz sobre as obras de cada um com a perspicácia de um ensaísta; e explica conceitos científicos com habilidade de um jornalista dedicado ou um professor de cursinho apaixonado.

Cada capítulo segue uma mesma estrutura, estabelecendo um padrão – tão ao gosto de nossa mente, como frisa Lehrer. Começa contando um pouco sobre determinada obra, depois passa por passagens biográficas do personagem em questão e então nos introduz nos desvios científicos provocados por tais artistas.

A variedade de temas e sentidos abordados contribui para nos manter atentos e curiosos. Como define o próprio Lehrer: “A ciência é vista pela ótica da arte, e a arte é interpretada à luz da ciência. O experimento e o poema se completam. A mente, feita pelos dois, torna-se um todo”.

Cada um dos famosos contemplados por Lehrer teve, em algum momento, muito sucesso em suas carreiras. Eles não precisam mais de algum tipo de justiça ou reconhecimento em suas áreas de trabalho. O esforço em Proust Foi Um… é intensificar – ou mesmo começar, em alguns casos – o diálogo entre áreas distintas e resgatar a importância científica da arte.

A Vida Imortal de Henrietta Lacks (Companhia das Letras, tradução de Ivo Korytowski), de Skloot, realiza uma tarefa jornalisticamente mais árdua ao provar a importância para o mundo de alguém que não deixou nenhuma obra, nenhum estudo. O legado de Henrietta Lacks, uma mulher negra que morreu aos 31 anos de câncer cervical em 1951, foram cinco filhos e um punhado de células de seu útero.

Seus filhos, criados de maneira inóspita (uma morreu internada num hospital psiquiátrico e outra foi violentada por um primo), pouco tiveram a chance de tentar algo. Negros, eles eram frutos de um Estados Unidos com severas leis raciais e não vingaram como os artistas de Lehrer.

Mas as células de Henrietta viraram as células HeLa, as mais famosas do mundo científico. Foram as primeiras que se reproduziram em larga escala em cultura. Cancerígenas, mas tinhosas, capazes de se tornarem trilhões, essas unidades de Henrietta provocaram a maior revolução na medicina dos últimos sessenta anos.

Usadas para a descoberta da vacina da poliomielite (numa época, a década de 50, que a doença matava e deformava milhares de pessoas), enviadas para o espaço, contaminadas com vírus de diversos tipos, espalhadas por todo o planeta, se tornaram as cobaias de tudo o que motivou o progresso médico da segunda metade do século 20.

Rebecca Skloot tomou conhecimento da importância de Henrietta Lacks em 1988, quando tinha 16 anos e assistia a uma aula de biologia numa faculdade comunitária. Hoje, Skloot escreve sobre ciência em várias publicações e lecionou escrita científica e de não ficção nas universidades de Nova York, Memphis e Pittsburgh. E Henrietta ganhou um livro que está sendo traduzido para mais de vinte línguas e em breve será adaptado para a TV pela HBO, com produção de Oprah Winfrey e Alan Ball (de True Blood).

Assim como Lehrer, Skloot é excelente jornalista e coloca em sua prosa muita informação – sempre relevante e de fácil entendimento – e emoção. Sua intenção foi resgatar essa mulher que mudou a face da medicina, mas quase ninguém conhecia. Nem mesmo seus familiares sabiam que as células de Henrietta continuavam por aí enfeitando o universo.

A organização do livro de Skloot é exemplar e nos joga em uma empolgante gangorra de vai e volta no tempo. A autora recria a história de Henrietta e sua família numa América preconceituosa, onde médicos realizavam excêntricas experiências com negros; relata sua própria jornada, como escritora curiosa, para encontrar os filhos de Henrietta e tentar a autorização de cada um para contar essa história; detalha como as células HeLa enriqueceram laboratórios, cientistas, médicos e empresários – e como ninguém da família Lacks viu um centavo dessas mitoses; toca em assuntos perturbadores ao identificar como funcionam as experiências da medicina e quanto desvio ético e moral existe nessa área.

Emocionantes e estupendos, esses livros nos aproximam da ciência, da medicina, da arte e da política. Não é pouca coisa.

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