X-Men – Primeira Classe e o prazer da arte

O escritor Jonathan Franzen – na moda agora no Brasil por causa da tradução de Liberdade – é um desses artistas que gostam de saber que suas obras também provocam prazer, além da tríade “discussão, dor e transformação”. Na literatura, causar essa satisfação – o prazer – parece ser cada vez mais complicado, principalmente entre os jovens, afinal estamos falando de uma narrativa considerada por muitos envelhecida e de compreensão menos imediata (sem falar nos diversos tipos de analfabetos).

O cinema, por mexer com tantos sentidos e lidar com conceitos tecnológicos e contemporâneos, é a arte capaz de acessar de forma mais rápida esse estado prazeroso. Muitas vezes só a pipoca, a companhia, a fofura da poltrona já proporcionam tal emoção (às vezes o filme estraga o prazer).

Esse contentamento, quando vem desacompanhado daqueles adjetivos mais sérios, também pode ser associado de forma pejorativa a um gênero, o “escapista”. Nesses casos, aparece a culpa, pois estaríamos tendo imenso prazer com a arte, mas nada de transformação, dor etc. E aí chegamos até Hollywood e seus filmes apenas divertidos. Apenas? Pois atingir com graça este estado de espírito merece uma revisão. Então sempre é bom ouvir alguém respeitado como Franzen comentar sobre a importância do prazer na arte.

“Dar prazer” deveria ter peso dois quando analisamos um filme. Quantas vezes ouvimos alguém dizer com um muxoxo: “ah, eu me diverti muito. E só”. Pois a diversão faz parte sim da obra de arte. E ver X-Men – Primeira Classe é tão prazeroso quanto assistir qualquer outra obra considerada mais sisuda ou que toque em grandes temas.

O que mais impressiona neste filme é o número de cenas interessantes e, em alguns casos, até mesmo memoráveis. E o melhor: a brincadeira não apenas dá certo visualmente (obrigado, Bryan Singer, por fazer os heróis em 2D); a estrutura do roteiro consegue encaixar bons diálogos, triângulo (ou quadrado) amoroso, crise dos mísseis em Cuba e outras mumunhas dramáticas no meio de submarinos voadores, mulheres vestindo apenas lingerie e ataques de seres mutantes. Já temos nosso Watchmen (ou nosso Star Trek) deste ano.

Ao explicar como os personagens dos outros quatro filmes da série viraram heróis e vilões com poderes especiais, o diretor Matthew Vaughn e a equipe de roteiristas construíram uma sedutora e irresistível história. Não se trata apenas de um bem pensado jogo de ação, mas também um filme sobre vingança, política, amizade e, acima de tudo, com grandes personagens.

Charles Xavier (James McAvoy), Erik (Michael Fassbender), Mística (Jennifer Lawrence) e Sebastian Shaw (Kevin Bacon) formam o núcleo duro dessa nova adaptação dos quadrinhos. Todos recebem longos momentos para demonstrar suas fraquezas, buscar a superação ou cair de vez no limbo. Pena que Emma Frost (January Jones), que deveria participar com classe dos poderosos, naufraga vertiginosamente durante o filme até se tornar o único ponto fraco do longa – apesar do corpinho jóia de January.

Vale a pena citar alguns dos destaques:

– O andamento do prólogo no campo nazista é primoroso e dita todo o ritmo do filme. É uma sequência que começa forte e violenta, depois cai para uma série de diálogos dramáticos e lentos (para nos deixar visualizar bem uma moeda e provocar enorme tensão) e aí volta a subir para um final furioso e espetacular.

– A interpretação de Michael Fassbender, uma mistura de Daniel Craig com Jon Hamm, capaz de seduzir e, no minuto seguinte, enfiar uma faca no pescoço de alguém. Uma cara que mais esconde que revela, em constante estado de espera, fermentando um ódio inominável.

– James McAvoy faz com brilhantismo o pólo oposto do amigo Erik. Bon vivant, charmoso, vaidoso e dedicado, parece não apenas contar todos os seus segredos, como também acredita piamente num mundo povoado pela sinceridade e fraternidade.

– Toda a sequência durante a crise dos mísseis em Cuba poderia dar conta do filme; há ali reviravoltas suficientes para conquistar até mesmo aquele que acha homens voadores uma tremenda besteira.

– As divertidas cenas de recrutamento e treinamento dos novos X-Men são bons exemplos de como ser criativo, rápido e interessante ao narrar situações batidas – mas necessárias.

– E Jennifer Lawrence, com aquele seu jeito juvenil, mas já tão maduro. Provavelmente uma daquelas estrelas que estarão peladas na capa da GQ segurando um Oscar (ela também arrebenta em The Beaver).

Sempre bem equilibrado entre o macro (temos que salvar o mundo) e o micro (quem são essas pessoas?), X-Men – Primeira Classe nos faz sentir prazer, e este também é um dos atributos da arte.

EM TEMPO 1

Para deixar o texto amarradinho, vale finalizar com Franzen. O escritor Antônio Xerxenesky escreveu bom artigo (aqui) sobre Liberdade. Também fiquei encafifado sobre o trecho escrito por Patty.

EM TEMPO 2

Pra fechar mesmo, também seria bacana ver o trailer de Rise of the Planet of the Apes, de Rupert Wyatt. Pelo jeitão da coisa, mais uma daquelas loucuras bem prazerosas.

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