Capitão América (o personagem, não o filme) é tão naïf que chega a dar pena. Seu espanto ao se ver perdido numa Nova Iorque tomada pelo caos coloca o herói num tal estado de fragilidade, que fica difícil acreditar que ele não se mate ao descobrir que agora os Estados Unidos perderam crédito na praça.
O filme de Joe Johnston, Capitão América: O Primeiro Vingador, é uma oportuna viagem pela época das matinês, quando mocinhos de roupa colante salvavam o mundo apenas com uma porrada no cocuruto de um vilão mascarado – bem, pelo menos esta foi a imagem que ficou.
Um tempo em que o planeta sabia o que combater: soldados alemães carrancudos; e se eles tivessem o rosto queimado e gritassem “heil, Hydra!”, aí o negócio era descer o cacete mesmo.
A platéia podia torcer tranqüila, sem nenhuma crise de consciência ou dúvida. De um lado, existiam os heróis com nobreza de caráter e que seguiam os instintos de um coração de ouro (como o doutor Abraham Erskine, interpretado por Stanley Tucci, faz questão de mostrar). E do outro, o mau, o abominável monstro ganancioso, egocêntrico e sociopata, capaz de mergulhar o universo nas trevas apenas para satisfazer seu sadismo.
A guerra se fazia nas trincheiras e na lama do campo de batalha. Gabinetes serviam apenas para criar burocratas de terno que tentavam entreter a população com showzinhos baratos – resumido no filme por engraçadíssimo clipe do Capitão América divertindo a massa de 12 anos de idade.
O que importava era a valentia e a nobreza de caráter. Quem possuía essas duas qualidades – um sorinho que injetava força muscular sobrenatural também ajudava – conseguia afastar a tirania, déspotas nada esclarecidos e malucos em geral.
“Bons tempos, aqueles”, Steve Rogers deve estar pensando neste momento.
Como todo mortal sabe – e até alguns zumbis também – o Capitão América não morre no final. Para azar dele, porque não será nada fácil participar da turma dos Vingadores, trupe recrutada por Nick Fury (Samuel L. Jackson), em longa-metragem a ser lançado no próximo ano.
Pobre Steve Rogers, cidadão norte-americano que estampa em seu nome um “país” ultrapassado, uma ideologia imperialista que hoje é achincalhada pelo Hugo Chávez e comandada pelo Tea Party.
Como será eliminar os nazistas, dormir por 70 anos e acordar numa Times Square anunciando que logo mais os EUA não conseguirão nem comprar chiclete?
Imaginem esse herói, que se protege da morte usando um mísero escudo, enfrentando a primeira reunião com alguns de seus colegas Vingadores, estes sim representantes da truculência e do “pega pra capar” atual?
Pensem em Steve Rogers ouvindo o Tony Stark contar vantagem sobre a capacidade dele de construir mísseis, voar até a estratosfera e pegar as gatas mais desejadas do planeta (lembrem-se: o Capitão América é virgem e foi brother do pai do Stark).
E quando o Thor exibir os poderes de seu martelo (ops, desculpem, não é martelo, mas sim mjolnir)? Como competir com um sujeito que é literalmente de outro mundo e que chega aqui usando como meio de transporte uma ponte de arco-íris?
E ainda tem o Hulk, de certa maneira um Capitão América melhorado, pois também sofreu mutação genética, mas ganhou força descomunal.
Enquanto isso, Steve Rogers tem seu idealismo de almanaque e um escudo! “Ai, ai, ai. Sério, quem vai cuidar do bebê chorão?”, será a primeira piadinha do Stark.
Será ainda pior se a galera se reunir e resolver dar uma super missão para o Steve. “Que tal se ele continuasse entretendo o pessoal enquanto lutamos?”, pode mencionar um arrogante Thor ou a sedutora Viúva Negra.
Aí, em vez de espetáculo da Broadway, Capitão América pode parar num reality show. Não está fácil para ninguém.
Aquele cara que acabou com a Hydra, a organização maléfica da Segunda Guerra Mundial, vai ter que ralar para escapar do bullying e entender toda a confusão em que o mundo se meteu. Vai explicar que agora os alemães é que estão salvando a Europa; ou que os comunistas já ganharam e perderam tudo.
Tadinho, nem adianta a gente aconselhar um porre – lembrem-se, o metabolismo do danado é quatro vezes maior que o normal, tornando seu corpo uma segura esponja.
Espero que algum antidepressivo funcione ou ele vai embarcar numa viagem sem volta.
Melhor ainda, eu recomendaria para o Capitão América entrar num cinema e ver Melancolia, de Lars Von Trier (claro que algum Vingador iria tentar impedir, dizendo que se trata de uma obra “de um nazista”).
Ali está a Terra em rota de colisão com um planeta indomável. Que belo espetáculo sobre a depressão, sobre o insondável, sobre o fim.
Não há martelo, Homem de Ferro, criatura verde ou escudo capaz de deter essa força que carrega tantos para a inércia.
Acho que o Capitão América poderia se identificar com as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg) e entender que essa energia pode estar sempre por aí, viajando pelo universo.
Quem sabe ele não se deliciaria com a estética de Lars Von Trier, com a música de Wagner e com a rara oportunidade de sair de uma sala podendo organizar pensamentos sobre o mundo?
Ao compreender nossa fraqueza e falibilidade, ele ganharia alguns pontos. Todos os seus amiguinhos são mais fortes e viris. Mas talvez o Capitão América ainda possa se safar usando algo que ninguém mais parece ter por aí: sensibilidade.
Steve Rogers ainda vai sentir muita falta daquele mundo maniqueísta das matinês.

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