Pelo fim do “filme de arte”

Eu odeio “filme de arte”: não a coisa, mas o nome. Ele aprisiona um cinema tenazmente vivo num parque temático sonolento e com brinquedos acessíveis apenas para quem sabe de cor a filmografia do Godard. Essa expressão é uma obra-prima de publicidade negativa, um tour de force de antipropaganda*.

Qualquer longa que em seus primeiros dez minutos não ofereça tiro, um mocinho convincente, bastante sarcasmo, alguma donzela pelada ou barulho, muito barulho, pode ser rotulado como “de arte”. Este selo da morte faz com que o grande público, esta entidade volúvel, não aceite o desafio da contemplação (e da dúvida).

E os críticos – em sua maioria – não fazem questão de mudar esse jogo. Alguns deles preferem dizer que algo é “de arte” do que tentar nos explicar certos pontos de interrogação; outros já estão viciados no discurso mercadológico e, assim como parte da platéia, também não querem saber daquilo que soa diferente, original e que exige certo grau de atenção.

Saindo de uma sessão de A Árvore da Vida, a obra-prima de Terrence Malick, escutei algumas vozes declamando em celulares: “Ei, você não sabe, acabei de ver um ‘filme de arte’!”.

Outra comentou que “tem o Brad Pitt, mas é ‘cabeça’”. E um roncou durante a exibição, mas no final fez questão de bocejar para todo mundo que “não tem saco para cinema parado e sem história”.

Mas que maldição! O tal rótulo “filme de arte” sempre vem acompanhado de amiguinhos imundos e perigosos, como “cabeça”, “parado”, “lento”, “confuso”, “intelectual”, “para iniciados”, “difícil”, “complexo” e, o pior de todos, “parece filme francês”.

Essa história de colocar algumas obras na categoria “de arte” pegou tanto que virou um gênero. Bem, não sei se críticos e “especialistas” insistem em isolar alguns autores nessa categoria apenas para afastar intrusos; ou se o público, acostumado com o bombardeio de certos estilos narrativos, rejeita qualquer tipo de invenção.

Mas é uma chatice ver pessoas desistindo de acompanhar A Árvore da Vida apenas porque alguém disse por aí que é “de arte”. Atenção, turma: existem filmes bons e ruins, mas não existem filmes “de arte”. Fiquem com a arte e nos deixem curtir os filmes.

Terrence Malick é um daqueles diretores que nos fazem assistir de joelhos (e dezenas de vezes) a seus longas. As sequências que contam a história da família O’Brien e as cenas da criação do universo de seu novo filme só podem ser obras de algum milagre (humano, veja bem).

É impressionante constatar que, numa época em que existem tantas imagens que não significam nada, Malick consegue fazer um filme de duas horas e 20 em que cada imagem nos lembra algo (um sentimento, uma palavra, uma dor, uma alegria). Tanto que parece impossível transformar essas sensações em palavras (para terror dos blogueiros e resenhistas).

O diretor norte-americano parece aqui atingir o pico de sua filmografia, arranjando de maneira sublime e emocionante suas reflexões sobre o homem, a natureza e a idéia do divino.

Não é pouca coisa, pois Além da Linha Vermelha (1998) ou O Novo Mundo (2005) já mostravam um cineasta de imagens potentes e equilibradas entre o realismo e o esteticismo.

Ver A Árvore da Vida é como folhear um álbum de fotografias de nossas vidas na Terra. Como disse o critico Inácio Araújo, para compreender cada uma daquelas situações, basta ter uma alma.

Num tribunal fictício, se um dia a dona Literatura, a madame Artes Plásticas ou a senhorita Música se unissem para provar que o cinema é uma arte menor, o senhor Malick seria arrolado para trazer seus filmes e sepultar qualquer acusação difamatória em cima de Hollywood.

Em A Árvore da Vida, técnica e sentimento se unem para contar a história do mundo, um amontoado de acontecimentos doloridos e outros tantos tão bonitos que nunca param de nos atordoar.

Num sistema tão complexo quanto a produção de um longa-metragem, beira o inacreditável descobrir que tudo deu certo. O senhor Malick é como um autor que reescreve frase por frase seu romance de oitocentas páginas. Nada parece fora do lugar, tudo se liga, cada palavra carrega um projeto, uma escolha. E todos apontam para a reflexão e o pensamento.

Além de um diretor de fotografia (o mexicano Emmanuel Lubezki) e cinco montadores (entre eles o brasileiro Daniel Rezende) precisos, A Árvore da Vida traz um elenco fascinante, como se olhares, expressões e gestos estivessem sempre ali, apenas esperando que um dia o senhor Malick os captasse.

Com sua trilha-sonora poderosa, que reconforta em muitos casos, e nos impressiona em tantos outros, o filme também aponta para um horizonte auspicioso. Como falar em morte do cinema se ainda existem filmes como os do senhor Malick?

Filmes, nada desse papo “de arte”. Chega de colocar nesse gueto maldito autores que nos oferecem o sublime.

A Árvore da Vida é apenas um enorme filme.

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*O primeiro parágrafo deste artigo é uma cópia descarada do capítulo um do livro Escuta Só (Companhia das Letras), de Alex Ross (você pode ler o prefácio aqui). Um autor que luta acorde por acorde para mostrar que ninguém deve ter medo da música clássica – aliás, usada de maneira comovente por Malick.

Um comentário em “Pelo fim do “filme de arte”

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  1. Já é um dos 5 melhores filmes que assisti. Mas tem coisas que não dou 10: Não gostei de muitas das musicas retiradas do repertorio classico, não todas. Achei-as grandiloquentes demais, mas a musica original do filme gostei bastante. Outra coisa que não gostei foi a duração excessiva da criação do universo, não que devesse ser retirasa. E um dos detalhes que gostei que a mae tinha um pai carinhoso, mostrado no inicio do filme.

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