“Avenida Brasil” prova que novela é a praia da dramaturgia brasileira

Se com Fina Estampa Aguinaldo Silva conseguiu colocar novamente a novela das nove na boca do povo – forçando bastante a mão e usando com galhardia a mídia, é verdade –, João Emanuel Carneiro aparece agora com Avenida Brasil para demonstrar por que o gênero ainda traz a melhor dramaturgia feita no país.

O primeiro capítulo do folhetim deu um pau em muito do que se tem visto na TV aberta nacional. Foi uma abertura digna de algumas boas séries norte-americanas, com um ritmo impressionante e uma direção segura – muitas vezes, até mesmo ousada, com efeitos especiais para recriar o Maracanã lotado.

João Emanuel apostou no suspense, uma tacada que o consagrou em A Favorita. Ao concentrar a ação num único dia, apresentou seus elementos com força, usando temas recorrentes das primeiras cenas (pedido de casamento, traição, morte, vingança, humor etc.) de uma novela, mas colocando muita tensão em cada sequência.

O golpe de mestre veio quando descobrimos que Genésio (Tony Ramos) enganou a mulher, Carminha (Adriana Esteves), e por tabela todos os 40, 50 milhões de brasileiros que acompanhavam a trama. Quando ele volta para o banco e sacamos que entregou uma mala falsa para os ladrões, Avenida Brasil pulou o fosso da mediocridade com um salto triplo. Todo mundo caiu nessa.

Tudo foi tão bem estruturado, que a sensação era de ver um filminho baseado nos trejeitos de Hitchcock. Afinal, tratava-se de dosar com graça a quantidade de informações que sabíamos com uma boa carta na manga.

Ficamos na torcida, fechando os olhos por saber que em pouco tempo o Tony Ramos poderia empacotar (até porque já estava dado que seria uma participação especial), e também fomos surpreendidos. Aí está o melhor cenário que um bom roteirista pode montar.

Permeando todo o conflito principal, tivemos futebol (poucas imagens da bola rolando, mas eficientes), um salão de beleza (o lugar tem tudo para emplacar) e um cafajeste. Assim dá gosto.

As três cabeças da direção – Ricardo Waddington, José Luiz Villamarim e Amora Mautner – ainda capricharam na direção do elenco. Fazia tempo que todos os personagens não apareciam tão bem logo na estréia. Vale ressaltar a difícil cena entre a vilã de Adriana Esteves e a coitada da Ritinha (Mel Maia, com alguns momentos impressionantes).

Não tem jeito, para quem curte dramaturgia, novela é a praia do brasileiro.

5 comentários em ““Avenida Brasil” prova que novela é a praia da dramaturgia brasileira

Adicione o seu

  1. Cara, André, desde as chamadas comecei a observar algo diferente do que havia sendo feito ultimamente, inda mais depois da furada de Fina Estampa (forçadíssima e mal feita ao meu ver).
    Ao acompanhar a primeira semana de Avenida Brasil, e com fervor, fui procurar saber quem era o autor porque estava por fora e, bingo (!), era o único que achei que poderia ser: “o cara que me impressionou em A Favorita”.
    Tá bem dosada mesmo, um humor gostoso e câmeras brincando com enquadramentos e focos que fogem dos padrões “noveleiros”.

    Pra mim já conto entre as mais ao lado de Que Rei Sou Eu, Mandala (?), A Favorita e Cordel Encantado 😉

    Bj grande,
    Nic

    1. Boas escolhas de novelas, Nic. Na verdade, não lembro de Mandala (quer dizer, sei que era Jocasta e tal, mas não vi) e perdi Cordel Encantado, mas o pouco que olhei me agradou bastante. E Avenida Brasil continua me impressionando – principalmente por causa de seus fabulosos ganchos. Tô curioso para saber até quando os roteiristas vão aguentar o tranco. Tem tudo para ser um daqueles clássicos (Carminha já é). Beijo.

Deixar mensagem para oroteiro Cancelar resposta

Blog no WordPress.com.

Acima ↑