“Valente”, Pixar e a torcida pela mediocridade

Schadenfreude é a palavra alemã que designa o sentimento de alegria pelo sofrimento alheio. Não é novidade que parte da crítica ama curtir com a desgraça dos outros e muitos jornalistas colocam esse vocábulo entre seus preferidos.

Pode ser impressão (só pode), mas o filme mais recente da Pixar, Valente, provocou um pré-schadenfreude, com algumas pessoas torcendo para o desenho ser uma porcaria, para assim escrever aqueles bonitos epitáfios nos jornais.

Mas o que passa na cabeça desse povo? Tem gente que prefere assistir a um filme ruim e depois falar mal. Que tipo de público vibra com a própria decepção?

A Pixar lançou seu 13º – excelente – trabalho nos cinemas. O mentor tecnológico do negócio, Edwin Catmull, é um gênio. John “Camiseta Havaiana” Lasseter, um dos fundadores do estúdio, virou chefão na Disney e faturou bilhões de dólares com a venda da companhia. Steve Jobs colocou uma graninha nas loucuras da empresa e se tornou mito. Algumas das produções dos caras, como Toy Story, Wall-E, Up e Procurando Nemo figuram como responsáveis por renovar criativamente Hollywood nas últimas décadas. E o que o crítico pensa? “O próximo filme vai ser uma bosta, vocês vão ver!” Não entendo. Por quê?

A turma começou a tratar a Pixar como se fosse um velhinho de 99 anos querendo correr cem metros e vencer o Usain Bolt. Como se os sujeitos de Emeryville não renovassem os quadros (vários diretores foram fazer live action), não mudassem suas ideias, não continuassem buscando a mais avançada tecnologia.

Valente não é Toy Story 3, porque flerta muito mais com o lado infanto-juvenil de sua audiência. Isso é ruim? Isso significa que eles perderam a mão? O filme é um conto de fadas muito bem estruturado, com uma personagem principal forte, boas cenas de ação, ritmo perfeito e uma técnica – talvez a melhor – invejável. Só não engulo muito aquela virada da mãe, mas ok.

Aí eu leio a pergunta: “A Pixar perdeu a mão?”. Oi? Oi? Oi? Porque estão falando de mulheres que viram ursos em vez de promover uma discussão sobre a morte e a obsolescência? Ué, em nenhum momento prometeram que Valente seria um tratado sociológico sobre a barbárie familiar na Escócia.

E que tal aquele magnífico curta-metragem – La Luna – exibido antes do filme principal? Um treco tão poético e acachapante que vale por uns oito Batmans. Já fiquei contente só com o prefácio.

Mas não adianta. O pessoal não se conforma se alguém acerta em cheio sempre – ok, Carros 2 é chato – e sente falta de um “schadenfreudezinho”.

Triste do sujeito que fica na expectativa para o Neymar ser uma fraude; o Gay Talese se revelar um analfabeto; o Schumacher ser um robô; a Pixar fazer filmes horrendos.

Essa torcida pela mediocridade é de doer.

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