A terceira temporada de Louie, a melhor série da televisão hoje, terminou num vilarejo na China. Antes disso, o personagem principal, Louis CK, foi treinado por um executivo da CBS – interpretado por David Lynch – para substituir David Letterman no comando do talk show mais famoso do mundo. Um pouco antes, CK foi parar num puteiro com o Robin Williams. Antes ainda, ele se envolveu com uma potencial suicida.
Cada episódio de Louie é uma gema de criatividade, engenhosidade e surpresa. Se fosse possível apostar no que vai acontecer na série, você certamente não ganharia nunca. Nem o matemático Oswald de Souza conseguiria fazer uma estatística sobre possíveis rumos da trama.
Bem, estamos falando de um gênio. Louie não é a melhor série de comédia hoje, mas sim a melhor série de qualquer gênero.
O comediante stand-up de Boston Louis CK (a sigla se refere ao sobrenome paterno Szekely) produz, escreve, dirige, interpreta e edita com maestria – em todas as áreas – cada um dos episódios.
A série nasceu de um projeto de baixo orçamento do canal FX, da Fox. Os executivos do Murdoch ofereceram módicos US$ 250 mil por episódio (bem pouco) para CK construir suas temporadas, mas, em troca, deram total controle criativo para o camarada. Deu no que deu.
Com 44 anos, Louis ergue a série a partir de alguns de seus shows – ele providencia 90 minutos de excelente material novo nos palcos todos os anos, o que é um milagre – e de sua vida pessoal como comediante desquitado pai de duas garotas (interpretadas de forma estupenda na tela).
Vergando uma eterna camiseta preta e razoável pança, ele fala sobre vergonha, medo, masturbação, morte, vida. Enfim, as coisas que importam – aqui uma pequena seleção da revista GQ.
Difícil não terminar um episódio e pensar imediatamente em ingerir cicuta. CK sabe cutucar uma ferida.
Com arrasadoras participações especiais (David Lynch deu um show) e um enorme senso estético (a série é lindamente fotografada), Louie se estabilizou como um espetáculo e tanto, daqueles que fazem da TV um cantinho muitas vezes melhor do que o cinema.
CK também usa a tecnologia com grande perspicácia, sendo o Radiohead dos comediantes. Ele resolveu vender ingressos para as suas apresentações diretamente pelo seu site, eliminando intermediários – leia-se: Ticketmaster. Em dois dias arrecadou quase US$ 5 milhões.
O episódio da China é uma daquelas jóias que precisam ser olhadas umas dez vezes. Com pouquíssimos diálogos, uma surpresa terrível e cenas marcantes, é a assinatura do gênio de CK.
