“Se Beber, Não Case 3” e os idiotas

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Sou um defensor das franquias – as cinematográficas, pelo menos. Tem gente que não se conforma quando anunciam a parte dois de alguma obra, como se automaticamente aquilo se transformasse num indigesto Big Mac.

Claro, esse papo tem bastante de “puro comércio”, sacanagem, capitalismo selvagem etc. Mas sem essa vontade de lucrar uns trocos com uma boa história, perderíamos a continuação de O Poderoso Chefão, Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas, Operação França, De Volta para o Futuro, Rocky, Homem-Aranha e dezenas de outros exemplos. Esses títulos já pagam as bobagens que fazem em nome de outros sucessos constrangedores.

Também não podemos esquecer que o McDonald’s pode servir aquela merda de sempre (aliás, o escritor britânico Will Self faz incursões bizarras pelo fast food no recente Rangos Reais), mas sempre nos oferece um aconchegante banheiro em qualquer biboca do mundo.

E aqui estamos com Se Beber, Não Case 3, uma série que eu respeitava. Mas que filmes perdemos, hein? Não entendi por que os roteiristas Craig Mazin e Todd Phillips (também o diretor) resolveram jogar no lixo a ressaca e o casamento. Não é disso que se trata a franquia? Não estamos falando de marmanjos tentando entender todas as cagadas que fizeram durante uma noite de aventuras? A graça não residia justamente nesse trajeto de reconstrução da história?

É como se o McDonald’s tirasse o hambúrguer do cardápio e fechasse o banheiro, só pra ser diferente.

Nos dois outros filmes, a gente se divertia ao observar aqueles simpáticos desmemoriados dando tapinhas na cabeça e se lamentando: “Meu Deus, eu fiz isso mesmo?”. Todos nós fazemos dessas traquinagens e depois queremos esquecer – mas sempre tem um pentelho nos jogando a realidade na cara.

Mas neste novo exemplar, ficamos sem essa brincadeira. Gostaria de saber quem foi o espertão que convenceu o pessoal a mudar tudo, como se a tal “novidade épica” importasse para a plateia.

Bem, o truque não funcionou. Pior: a piada final, a única que respeita a ideia da franquia, mostra o filme que perdemos. Em dois minutos finalmente nos reconciliamos com o bando de lobos. Pena que já estamos nos créditos de encerramento. Um desastre para a alma.

Cotação: quatro estrelas para o que acontece nos créditos; duas para o filme. Média: três. Viram como salvamos as coisas pela matemática?

Para resumir, optaram por uma história linear. Phil (Bradley Cooper), Ed Helms (Stu) e Doug (Justin Bartha) levam Alan (Zach Galifianakis) para uma clínica, mas no caminho são abordados por Marshall (John Goodman), um bandidão da pesada. Depois de apanharem um pouquinho, os amigos descobrem sua missão no filme: encontrar Mr. Chow (Ken Jeong). E é mais ou menos isso.

Vão para o México, onde desperdiçam todas as piadas sobre Tijuana. Depois ainda bolam um plano para roubar barras de ouro de um trafica, quando o longa vira uma sátira incompreensível de filmes de assalto.

Enfim, chato.

Ken Jeong faz o que pode e ganha pelo menos um bom momento – o voo sobre Las Vegas. Cooper e Helms pouco aparecem, pois nada acontece com seus personagens – imaginar o que seria se respeitassem o que rola no final…

Pelo menos quase tudo é entregue para Galifianakis, um enorme comediante. Porém, seu tempo mais arrastado, seus trejeitos femininos e tontices podem irritar bastante quem não suporta esse tipo de humor.

Mas a ingenuidade de Alan e essa celebração da imaturidade masculina nos levam para algo muito melhor. Estou falando de Our Idiot Brother (2011), dirigido por Jesse Peretz e escrito por Evgenia Peretz e David Schisgall. Não sei se estreou no Brasil ou foi lançado em DVD, mas baixem.

Não perco um filme com Paul Rudd, mas esse tinha escapado do radar. Ele interpreta Ned, um molecão ingênuo que curte seu fumo e vidinha sustentável nos arredores de Nova Iorque. Até que é preso. Após cumprir a pena tem que conviver com suas três irmãs, bando de lobas desesperadas – um belo trio com Elizabeth Banks, Zooey Deschanel e a sempre deslumbrante Emily Mortimer.

Sensível, com boas piadas e diversas cenas interessantes, temos aqui uma função para o idiota – revelar a hipocrisia dos outros.

Ned é um Alan menos abastado e um pouco mais real. Ao se confrontar com o mundo, acaba descortinando falcatruas, traições e um universo que ele certamente gostaria de evitar para sempre.

Ele funciona para a história, para os outros personagens e se integra ao filme.

Em Se Beber, Não Case 3, temos apenas mais um idiota engraçado. Já em Our Idiot Brother, conseguimos visualizar a importância dos idiotas engraçados. A diferença é enorme.

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