As reflexões sobre “Mad Men”

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Lá se foi Don Draper de novo. Com o fim da sexta e penúltima temporada de Mad Men, ficamos outra vez à deriva, sem uma novelinha pra acompanhar.

A temporada foi esquisita, com dois ou três episódios memoráveis e alguns momentos dos mais bizarros. Fazer o quê? Mas tudo já está tão consolidado pelo criador Matthew Weiner, que conseguimos aceitar – às vezes balançando a cabeça e resmungando – qualquer coisa.

Esse é um dos elementos que fazem uma série ser extraordinária: os personagens estão tão bem construídos, que a gente nem se importa com algumas tolices. Eles podem.

Eu gostei do final – apesar de achar arriscado. Há uma promessa grande ali de mudança de personalidade – até mesmo com o anúncio de um abandono da publicidade. Será que teremos prazer em acompanhar esse novo Don? Ou mesmo vamos suportar uma nova queda?

Weiner tem um ano pela frente. E nós também.

Agora, o que eu acho tão impressionante quanto a qualidade dessa era de ouro da TV norte-americana é a fase que críticos, blogs, jornais e revistas enfrentam.

Dez minutos depois do fim de um episódio, podemos ler análises consistentes e textos pertinentes.

A capacidade de reflexão – excelente reflexão – dos meios de comunicação dos EUA em relação aos seus produtos televisivos também ajuda na formatação desse período extraordinário para a dramaturgia.

Taí um elemento que indica, por tabela, o nosso atraso. Muito se fala de roteiristas, produtores, diretores etc. Mas e os críticos, jornalistas e repórteres da área no Brasil? Cadê os nossos pensadores?

Seria de grande valor poder ler opiniões provocativas sobre nossos projetos, receber esse retorno.

Infelizmente, por aqui o pessoal escreve aqueles 13 linhas no caderno cultural do jornal, conta como foi o Ibope do negócio, relata uma fofoca sobre o elenco e pronto.

Isso não gera mercado.

Se a turma quer mesmo ter uma indústria de séries daqui uns cinco, dez anos, também vale a pena viabilizar uma nova crítica, capaz de assistir a uma série.

Saber ler um roteiro e ver um episódio também é uma arte.

Eu gostaria de ler por que Copa Hotel é tão ruim ou o tal Dentista Mascarado acabou na primeira temporada.

O brasileiro e tão apaixonado pelas coisas, poderia ser mais apaixonado por séries.

Se as séries tivessem um Juca, um PVC, um Tostão (só pra citar os da Folha) escrevendo regularmente com graça e talento sobre os projetos, já avançaríamos um pouco.

Só sobre a última temporada de Mad Men, alguns dos textos mais interessantes que li:

– Roundtalble do site The Atlantic.

– Análise e entrevista com Matthew Weiner pelo grande Alan Sepinwall.

-Uns chutes do Salon.

– Um comentário bem pertinente da New Yorker.

– E, claro, os palpites do afiadíssimo Matt Zoller Seitz

*

Fiquei encantado com Antes da Meia-Noite, o último filme da trilogia do amor de Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy.

Não apenas pelo texto, mas pela dedicação de seu elenco (Julie nua destrói qualquer argumento) e imagem. Aquele pôr-do-sol é um dos momentos mais dilacerantes do cinema recente.

Mas como não dá tempo de falar muita coisa, fiquem aí com um trecho inédito do roteiro do filme. E depois, Draper vendendo o projetor da Kodak no final da primeira temporada de Mad Men, que diz muito sobre o fim da sexta.

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4 comentários em “As reflexões sobre “Mad Men”

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  1. André, um dos motivos pelos quais eu passei a acompanhar assiduamente o seu blog é esse: a falta de bons pensadores críticos sobre nossa TV. Daniel Castro às vezes ensaia algo do tipo; Patrícia Kogut também – mas, no geral, todos acabam descambando para as bobajadas de ibope e fofoquinhas. Por que você não se candidata a escrever em algum caderno cultural de um grande jornal, tipo a Folha? 😀

    Sobre Mad Man, comecei a assistir há pouco tempo. Confesso que o ritmo lento da narrativa me incomoda bastante, mas a qualidade geral da série é inegável. Emplacar um similar brasileiro na nossa TV aberta é quase impossível, mas quem sabe agora com a vindoura enxurrada de séries na TV a cabo, não?

    1. Valeu pela leitura assídua, Rodrigo. E obrigado pelo seu apoio para eu ocupar vaga num jornalão. Eu e Folha já ensaiamos um relacionamento, mas paramos nas preliminares. De qualquer maneira, seria um ótimo investimento do jornal ter alguém especificamente para falar sobre dramaturgia (apostar mesmo em pessoas que escrevem em sites e blogs). Mas pelo jeitão da coisa, não querem ainda focar nisso. Abração.

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