Há um potente estimulante pairando na rede. O documentário Jodorowsky’s Dune é indicado para todos aqueles que precisam de injeções de ânimo. Paradoxalmente, o filme relata um belíssimo fracasso. Talvez um dos mais fascinantes e trágicos fiascos da história do cinema.
Eu já vi muitas horas sobre bastidores de grandes produções e li milhares de páginas contando como dezenas de filmes foram feitos (para ficarmos com três recentes traduzidos para o português: Quinta Avenida – Cinco da Manhã, Cenas de uma Revolução e Os Bastidores de Hollywood na Vanity Fair). Mas poucos me deixaram tão empolgados para seguir em frente, encarando as adversidades e peitando executivos sem cérebro, do que esse Jodorowsky’s Dune, de Frank Pavich.
Portanto, anotem aí. Já temos o melhor doc sobre um filme que foi realizado (Hearts of Darkness, sobre Apocalypse Now) e, agora, a experiência mais empolgante sobre como foi “não fazer” uma obra-prima. Não se trata de um fracasso porque simplesmente a película nem chegou a ser rodada.
Na década de 70, o diretor chileno Alejandro Jodorowsky ganhou fama e virou um dos gurus das rodinhas descoladas (e desbundadas) por causa dos seus filmes El Topo e The Holy Mountain. Basta ver dois minutos de cada uma dessas obras para a gente entender que “Jodo” (um de seus apelidos carinhosos) estava em sintonia com sua época e, como acontece nas melhores obras, também muitos anos-luz à frente.
Ainda hoje é possível verificar que a piração era descomunal – e irresistível. Se cinema é imagem, Jodo fez algumas das mais hipnotizantes e enigmáticas (além de lindíssimas) cenas da história.
Como produtores de filmes não são nem um pouco trouxas (muitos são apenas estúpidos e burros), logo o malucão foi procurado para fazer seu primeiro filme para um estúdio de Hollywood. E mais: ele poderia escolher qualquer coisa, não importava o tamanho da encrenca.
Jodo resolveu adaptar Dune, o livro de ficção científica de Frank Herbert, que todo mundo sabia ser infilmável. Resultado? Ora, sinal verde para Jodo. Se alguém conseguiria interpretar os signos daquele livro esquisito e mostrar como são vermes gigantes, esse sujeito só poderia ser Jodorowsky.
Assim, como loucura pouca é bobagem, Salvador Dali, Orson Welles e Mick Jagger (já pé-frio?) entraram na parada, colocando ainda mais genialidade (e insanidade) na equação. O resto está no documentário. Há entrevistas com muitos dos envolvidos na trip e histórias saborosas, principalmente sobre a equipe de criação visual, que contava com Dan O’Bannon, Chris Foss e H.R. Giger, todos dementes que atingiram enorme sucesso.
Ué, mas não foi David Lynch quem dirigiu Duna, em 1984? Pois é. Jodo jogou anos de escrita, storyboards e chama criativa (sem contar os milhões de dólares) num livrão de centenas de páginas que nunca foi filmado. E sim, obviamente eu gostaria de ter um exemplar desses aqui em casa.
Hoje, aos 85 anos, Jodo faz observações sarcásticas e outras tantas filosóficas, permeando todo o documentário com seu discurso motivador. Assim, o fracasso de Dune se tornou referência em diversos outros projetos, como Alien e Blade Runner.
Essa é a história do filme que jamais foi feito, porém que mais influenciou obras-primas da ficção científica nas últimas décadas. É um conceito estranho que só poderia ter saído da mente perturbadora de Jodorowsky.
Em tempo: abaixo, um pequeno documentário sobre grandes filmes que não foram feitos por outro gênio.

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