Eu queria escrever sobre o roteiro de Interestelar e discutir um pouco um excelente perfil do Christopher Nolan publicado no NY Times. Até comecei a comentar os buracos (de minhoca e do texto dos Nolan) desse filme interessantíssimo, mas abandonei todas as ideias. Quem sabe depois. Porque agora o negócio é ver a série Jane the Virgin.
Adaptação de uma telenovela venezuelana (Juana la Virgen) e exibida pelo canal The CW nos EUA, o seriado vem sendo saudado como uma das melhores estréias do ano na TV. Como menciona Anthony Mendez, o hilário e cínico narrador dos episódios, eu fui fisgado em poucos minutos.
Jane the Virgin é a comédia que nós deveríamos ter feito – já que aparententemente nossa melhor teledramaturgia reside no melodrama e nas tramas absurdas das telenovelas.
Imaginem ver Império no fast. É mais ou menos assim a sensação de acompanhar as histórias envolvendo Jane, a garota do título que se descobre grávida mesmo sem nunca ter experimentado os prazeres da carne.
Trabalhando num hotel chique em Miami, ela nem chega a pensar em intervenção divina, já que seu rebento foi fruto de uma patética confusão médica.
Mas quem é o pai? Justamente Rafael, o ricaço coxinha dono do hotel onde ela trabalha. Sério? Sim. A confusão aconteceu porque na hora de fazer a inseminação artificial em Petra, mulher de Rafael, a doutora Yara Martinez estava aturdida porque sendo lésbica e bêbada… Ah, assistam.
A trama é tão frenética e irresistível, que posso escrever uns dez parágrafos contando tudo e teria estragado apenas uns dois minutos e meio do piloto.
A novela foi criada por Perla Farías e a gente fica aqui pensando como existe gente louca no mundo.
Nos primeiros cinco episódios que foram ao ar, a quantidade de situações causa inveja no mais insensato roteirista.
Mas a graça da série (e seu charme) não se concentra apenas no volume de informação e na capacidade de nos prender. O elenco é preciso, tanto no ritmo cômico quanto no carisma. Gina Rodriguez faz uma Jane frágil, cheia de fofura, mas também altamente sacana e esperta. A mãe dela, uma cantora de boate, e a avó seguem a mesma linha, exalando ternura e sandices. Yael Grobglas como Petra, a vilã loira, não poderia ser mais odiável.
Na ala masculina, tudo vai bem também. Começando por Justin Baldoni, o galã mais babaca possível, porém capaz de despertar alguma pena, e terminando em Jaime Camil, o hilário astro Rogelio de la Vega.
Numa temporada em que as séries românticas naufragaram (Selfie, A to Z, Manhattan Love Story foram canceladas logo na primeira temporada), a esperança criativa veio de um canto inesperado e considerado tosco: o sabor das telenovelas latino-americanas.
Jane the Virgin também nos faz pensar sobre o poder imutável dessas tramas rocambolescas, familiares e absurdas.
E o toque de mestre é oferecido pelo narrador, num dos melhores textos de voice over dos últimos anos (se quiser pode dar uma checada nesses textos da Vulture e da Salon que também compartilham meu entusiasmo).
A série é até agora o melhor exemplo dessas recriações e adaptações de novelas que a Globo tenta fazer no horário das 23h (como O Rebu e O Astro).
Pensou um dia poder conferir Avenida Brasil, a Série?

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