Eu sei que é impossível assistir a todos os títulos disponíveis na TV norte-americana, mas eu apostaria o box com as sete temporadas de Mad Men que Master of None certamente é uma das três (duas?) melhores séries que apareceram este ano. Talvez seja aquela com o texto mais brilhante, pela sua capacidade de alternar humor, ternura e questões sociais. Acho que já falei – muitas vezes – coisas parecidas sobre outros shows. Mas, acreditem, dessa vez é verdade. Master of None impressiona pela sagacidade, diálogos afinadíssimos e um absoluto controle de ritmo e narrativa. É como se atualizassem e misturassem vários ótimos episódios de Seinfeld, Extras, Friends e Louie (e essas comparações sempre aparecem para mostrar como tenho boas referências, mas nesse caso até que fazem sentido).
Enfim, Master of None é um completo deleite.
Criada e escrita por Aziz Ansari e Alan Yang, relata a rotina de Dev, filho de indianos e aspirante a ator que vive em Nova York. Cada episódio foca num tema (Ter ou não ter filhos? Somos ingratos com nossos pais? Como lidar com o racismo na TV?), mas de forma sempre bem humorada e, graças aos diálogos enxutos, precisa e contundente.
As referências são contemporâneas e devem ter sido escritas hoje pela manhã (chamar um UberX para a garota com quem você acabou de transar – e não o Uber mais caro – é sinal de pão-durismo?). Como protagonista, Aziz está confortável e carismático. Seria quase covardia tentar fazer qualquer um contracenar com ele. Mas todos são impagáveis, desde os pais até a sensacional Noël Wells, que faz Rachel, o interesse romântico de Dev (ah, é, a série também é a melhor comédia romântica do ano).
Acima de tudo, é uma série sobre preconceitos (raciais, sexuais, em cima dos imigrantes etc.). Há sempre uma cena esperta ou um questionamento certeiro em relação ao dia-a-dia das “minorias” (como diz um dos personagens, “falam que fabricar produtos para indianos é apostar num nicho… de um bilhão de pessoas”). Além disso, por causa da profissão de Dev, há muita metalinguagem. Os testes para filmes, as participações em comerciais e séries, tudo enriquece visualmente Master of None (os flashbacks são um espetáculo).
Você assiste a cinco episódios (são dez no total nessa primeira temporada) e já tem uma pequena lista com 20 momentos favoritos e outra com 37 piadas imperdíveis.
Como esses gringos são bons, ave Maria.
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Para não perder o tema (preconceito), há uma lúdica e encantadora versão sobre a morte de Pier Paolo Pasolini em cartaz. Pasolini, de Abel Ferrara, narra os últimos momentos do diretor italiano que encontraria a morte numa praia de Ostia em novembro de 1975. Espancado e atropelado, seu nebuloso e polêmico fim é mostrado por Ferrara como símbolo da incompreensão e da violência cometida contra quem escandaliza. Como não pensar em todos aqueles linchados fisicamente ou moralmente todos os dias?
Abel Ferrara também faz um filme sobre a arte da narrativa. Há delírios dentro de delírios, num caleidoscópio contaminado pelo espírito de Sheherazade. E Willem Dafoe, como Pasolini, está não menos do que estupendo, conservando a essência da criatura, mas flertando com o contemporâneo e adicionando diversas camadas de emoção e angústia.
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Claro, a peça O Topo da Montanha, da dramaturga norte-americana Katori Hall, em cartaz na Faap, é um programa inestimável em qualquer tempo (e praticamente obrigatório nos dias que correm). Lázaro Ramos interpreta o reverendo Martin Luther King na véspera de seu assassinato em abril de 1968. Ele contracena com Taís Araújo, que faz Camae, uma camareira surpreendente e desbocada, responsável por servir os últimos cigarros e café da vida do ativista.
(Só agora percebo que tanto Pasolini quanto O Topo da Montanha montam suas narrativas concentrando as histórias em poucas horas de vida de duas personalidades que seriam assassinadas. Não adianta, nos cinemas e no teatro, o foco em momentos capitais parece ser sempre melhor do que cinebiografias ou peças que tentam abarcar uma vida inteira.)
Lázaro (também diretor do espetáculo) abre espaço para Taís brilhar intensamente. Os discursos são necessariamente violentos, a plateia é fisgada em cinco minutos de peça e as reviravoltas do texto potencializam nossa plena satisfação. Há tanto riso e choro, tanta revolta e emoção, tanta generosidade e talento, que fica difícil sair do teatro depois. A vontade era ficar lá para mais um papo.

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